sexta-feira, 22 de abril de 2011

CORONEL ODILON




ODILON DE AMORIM GARCIA
José Alexandre Garcia

Para falar no abolicionista Odilon de Amorim Garcia necessário se torna revirar velhas páginas da nossa História e situar-mo-nos nas três últimas décadas do século passado, principalmente depois da Guerra do Paraguai.
Perdurava no Brasil triste e infamante nódoa: a escravidão.
As demais nações do continente já a haviam erradicado, mas as forças tradicionalistas do país, os senhores de engenhos, os proprietários de fazendas de café, os donos de extensas terras sequer queriam discutir o assunto, gananciosamente apegados à mão-de-obra barata que possuíam.
O escravo era uma peça, um bem, um objeto que possuíam com poderes de vida e morte, sem alma, sem direitos, sem família, sem liberdade religiosa ou sequer sexual.
As Leis do Sexagenário e do Ventre Livre foram paliativos que estudiosos de hoje consideram mais benéficas e favoráveis aos senhores que aos próprios beneficiários. A primeira desobrigava de sustentar pessoas de quase ou nenhuma serventia; e quanto à segunda, que poder-se-ia esperar de um ente nascido de um casal escravo de quem forçosamente iriam assimilar hábitos e costumes?
Na guerra contra o tirano Solano Lopes, formada a Tríplice Aliança, os oficiais brasileiros tomaram conhecimento de que na Argentina e no Uruguai não mais existiam elementos servis e um sentimento incontido de revolta e remorso os domina, sobretudo porque na hora cruciante das refregas, o escravo portava-se com uma bravura e um patriotismo digno dos maiores encômios.
Quando retornaram à pátria, Lançaram manifest o e recusaram-se a servir de capitães do mato nas empreitadas de recapturar escravos fugidos.
Este foi o primeiro grande golpe desferido contra o status-quo vigente.
Ao mesmo tempo, nasce e cresce avalassadoramente a campanha abolicionista da qual a grande voz foi Castro Alves, com seus versos fulgurantes, galvanizando toda a nação com a descrição da subvida que levavam nas senzalas os desditosos filhos do Continente Negro.
Por todo o Brasil, surgiram sociedades libertadoras, primeiro procurando alforriar e depois pregando abertamente o resgate do preto de qualquer maneira, através de audaciosos movimentos libertários, onde, dar-lhe fuga era o mais usual.
O Ceará foi a primeira província a abolir a escravidão. No Rio Grande do Norte, a honra coube à cidade de Mossoró e o 30 de Setembro de 1883 é uma página épica na sua História.  Várias cidades do Estado seguiram-lhe o exemplo e as sociedades secretas proliferaram, principalmente sob a égide da Maçonaria.
Em Natal, a Sociedade Liberadora é fundada em 1º de Janeiro de 1887 e um de seus fundadores é o coronel da Guarda Nacional Odilon de Amorim Garcia, que tornar-se-ia associado de grande destaque, principalmente pela sua condição de elemento de ligação que facilitava o meio de transporte para os fugitivos.
Segundo o professor Tarcísio Medeiros em seus “Aspectos Geopolíticos e  Antropológicos da História do Rio Grande do Norte”, os filiados da Sociedade Liberadora “rondavam as casas, pulavam muros, conversavam e convenciam os negros e os ajudavam a arrumar os molambos, as trouxas, redes, moleques, guiando a caravana até um ponto escondido onde uma barcaça os esperava nas margens do Potengi para transportá-los para o Ceará.”
Odilon Garcia era a peça decisiva na engrenagem da operação. Agente da Companhia Brasileira de Navegação a Vapor em nossa cidade, com parentes no Ceará e amigo do grande líder abolicionista em Fortaleza, João Cordeiro, a quem telegrafava horas depois da barcaça transpor a barra: Seguiram Jequiriti, tantos abacaxis. Jequiriti era o nome da barcaça e os abacaxis eram os escravos.
Contam até um fato pitoresco a propósito duma destas empreitadas.
Chegando a uma fazendola,entabulados os contatos, um cativo recusa-se a fugir. Era velho, doente, sentia-se bem onde estava, gostava do dono. O coronel Odilon, após esgotar os argumentos persuasórios, muniu-se de argumentação bem mais virulenta e convincente:
- Ou você foge ou mando lhe dar uma surra de cipó!
Lógico que o escravo logo convenceu-se.  Anos depois, quando remanescentes da Sociedade reuniram-se no Grupo da Botica, Odilon afirmava que o autor deste conselho não teria sido ele e sim outro grande abolicionista: João Avelino.  Este, por sua vez, o negava e atribuía o conselho a Odilon.
A bem da verdade, o personagem deste episódio nunca foi devidamente esclarecido, pois, reciprocamente, sorrindo, ambos se acusavam e se eximiam.

Odilon, o maçon

Outro fato que revela o caráter e a personalidade deste cearense nascido em Fortaleza em 1º de janeiro de 1846 foi o desenrolar da Questão Religiosa.
Recusando-se a abjurar a Maçonaria, o famoso Vigário Bartolomeu fora suspenso da Ordem por Dom Vidal, bispo de Olinda e Recife.
Ainda por cavilosa insinuação emanada do Palácio dos Manguinhos, católicos radicais passam a exercer mesquinha perseguição ao padre que fora durante trinta anos o vigário colado da Matriz, pastor de almas, seu representante na Assembleia e vice-presidente da Província: queriam a todo custo expulsá-lo de Natal.
Surge, então, um contra-movimento. Num abaixo-assinado dirigido ao presidente da Província, os notáveis, os homens de bem da cidade, solicitam a sua mediação e medidas de proteção para que o vigário aqui continuasse trabalhando e vivendo sem ser molestado.
Foi grande a minha emoção quando, nos arquivos da Loja 21 de Março, deparei-me com tal documento e entre os signatários, a maçônica assinatura do meu avô.

Odilon, o católico

Profundamente católico, dele partiu a iniciativa para a restauração da Igreja do Bom Jesus, na Ribeira, dando-lhe, em linhas gerais, a estrutura física que hoje possui.
Devoto do Senhor Bom Jesus dos Passos, era o responsável pelo 1º Passo na bi-centenária Procissão do Encontro, ali, na Doutor Barata, onde viveu e trabalhou, pois a Agência do Loide era um anexo de sua casa.
Aliás, a família Amorim Garcia foi responsável durante mais de noventa anos por este Passo, primeiro na Doutor Barata, enquanto pode ali residir sua viúva, Maria Amália de Amorim Garcia, a Dona Maroquinha, que foi a última moradora a sair de lá, quando a artéria se tornou centro comercial, e, depois, na Duque de Caxias, residência de Odilon, seu filho.

Odilon, professor e agente

Odilon de Amorim Garcia prestou concurso para a cátedra de Inglês no Atheneu Norte-riograndense em 22 de agosto de 1877.
Vivera na Inglaterra oito anos. Minha avó repetia sempre a história desse período. Ficando órfão aos treze anos, seus austeros tios o matricularam num colégio inglês e o embarcaram num cargueiro sem que ele soubesse uma palavra do idioma de Shakespeare.
Retornando a Fortaleza, logo aqui aportou no navio São Jacinto, portador da nomeação de agente da Cia de Navegação que depois transformar-se-ia no Loide Brasileiro, servindo neste posto mais de meio século. Aqui, constituiu família e viveu até o fim de seus dias.
Como professor, profetizava para seus alunos: aprendam Inglês, porque o Inglês será no futuro o idioma internacional por excelência, falada nos quatro cantos do mundo. E isto numa época de absoluto domínio do Francês e de Paris como capital do mundo civilizado.
E entusiasmava-se se os alunos pronunciavam pelo menos uma frase correta em Inglês, e distribuía notas máximas a mãos cheias.

Odilon, o agente consular

Segundo Cascudo, ele foi encarregado consular ou vice-consul durante cinco décadas.  Quando de sua substituição, o governo de Sua Majestade o condecorou, enviando valioso brinde em agradecimento pelos relevantes serviços prestados.
Assim, Odilon foi descrito por Cascudo:
“Conheci o velho Odilon na rua Doutor Barata,andando devagar,  falando brando, sorrindo sem pecado, inteligente, educado, fino de maneiras, viajado, sereno, irônico, as frases limpas, o vocabulário polido e equilibrado. Sempre evocava fatos do movimento abolicionista do qual foi um dos grandes artífices.
Realmente, o movimento o marcou. E recordava com orgulho que no dia 13 de Maio de 1888 somente restavam cinco escravos em Natal, tanto eles tinham agido nas caladas das noites e quanto aqui aportava a barcaça Jequiriti.
Faleceu no dia 22 de abril de 1922, deixando viúva Dona Maria Amália, que era sua segunda esposa e sua sobrinha, e os filhos que atingiram mioridade: Odilon, Luiz Odilon, Pedro Odilon, Antônio Odilon, a freira Maria Luiza e José Alexandre, meu pai.

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