terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

A cal que me guardas

Neuza Margarida Nunes


Meus pensamentos já não cabem nas teias da razão. Antoniel Campos

Armarei ciladas na noite de hoje. É pré-carnaval e na Ribeira uma banda toca. Ensaia, como se fora para aprisionar almas; como se fora para propor infernos.

Preparo meu corpo para uma noite suja de intenções.

Não me comparo a nada: despi de qualquer razão os meus atos. Já não sou afeto: sou carne.

Ardem em mim, consentimentos de ontem, quando fui menina e muitas vezes presa; alimento de luxúrias que não ficaram em mim. Nem em quem de mim fez pasto.

Hoje sou quem tarrafeio. Conheço os cardumes em busca de alimento; faço pescarias com anzóis de encantos mágicos perfumados.

Se hão de censurar-me, censuro-os eu na liberdade que proponho.

Lagos não me satisfazem. Apesar da imensidade, oceanos também repousam em limites: quero a ousadia da água que corre; a ousadia do obstáculo proposto.

Vencê-lo-ei sempre, sou rio: barragens não aplacam a minha fúria. Por isso previnem-se em comportas.

Estou ladeira abaixo e trilhos não sigo: tenho o peso dos comboios de minha idade. Nada me freia nem me conduz. Nem mais sou condutora de mim: sou deriva; Titanic a buscar icebergs.

Se estou louca, não sei. Não me importa a razão.

Não me quero fardo nem arrumo trouxas para viagens frugais: a roupa que visto basta-me como mortalha.

Não quero fantasia. Só me proponho ser coveira num carnaval de entregas: enquanto.

Do pó da cal que me guardas, quero apenas o sal que uso de tua carne.


Barro Vermelho, Natal/RN, 25 de Janeiro de 2005
Com medo de mim mesma

Larico Pellado

Luís da Câmara Cascudo
Livro das Velhas Figuras

O bacharel Alarico José Furtado foi o quadragesimo Presidente do Rio Grande do Norte. Recebeu nomeação a 13 de Abril e desessete dias depois empossava-se solemnemente no alto posto. Corria o anno de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1880. Treze mezes depois largava o poleiro. Não fêz cousa alguma. Nem um beneficio. Nem uma machadada abrindo rua. Só deixou anedoctas.

Mudava de casa como de chapeu. Estava no casarão da Rua do Commercio, voava para o alquebrados. Paço da rua da Conceição, passava o ex- Vacca Amarella, sobrado graúdo que Olin tho José Meira começara a fazer e que é o actual Palacio. Não gostava de ninguem. Tudo era ruim, antigo, acanhado, imbecil. Uma cousa agradou Sua Excellencia. Aguardente com summo de cajú. O presente apreciavel nos seus olhos era uma cesta de cajú e umas garrafinhas de canna, da bôa, destilada em alambique de barro, canna bem branca, bem fina, com aljofre borbulhando feito champagne. O doutor Alarico ficava manso só em falar nisso.

Nos primeiros mezes andou recebendo presente que era um nunca acabar. Perús, gallinhas, patos, ganços, jacás de milho verde, melancias, mellões do Assú, mamão de encher a bocca d'agua, macacheiras grossas como coxas, batatas, inhames, corós. Sua Excellencia desprezou a comida da terra. Achava desemxabida. O doutor Alarico era homem mais circumspecto, mais grave, mais austero deste mundo.

Andava como se levasse o andor do Nosso Senhor dos Passos. Andava lento, majestoso, pisando como se tomasse conta do chão. Era uma creatura serissima. E malcreadissima. Nesse tempo inda não tinham dado nome a neurasthenia. Vestia-se de preto, casacão comprido, collete abotoado até o pescoço, collarinho grande, bem esticado, gravata negra, fininha, tesa como se estivesse pintada no gogó de Sua Excellencia. Magro, ossudo, esgalgado, narigudo, olhinhos de lambeôio, bigode de granadeiro, bocca de labios estreitos e apertados como abertura de mealheiro. Na cabeça um chapeu do tamanho duma chaminé. Tal era o 40° Presidente da Provincia do Rio Grande do Norte.

Este homem serio, sizudo, cheio de etiquetas e de sala-maleques, de proloquios e de latim meúdo, possuia uma cabelleira de poeta medieval, uma cabelleira basta, annelada, sedosa. Uma belleza. Quando sua Excelencia envergava o treze da gola, nos dias de rigor, ficava até bonito. A gola bordada à ouro escondia-se sob a caricia dos cabellos castanhos.

No dia 2 de dezembro de 1880 o povo, com banda de Musica, bandeira, soldado de linha, gente grande e pequena veio saudar, ritualmente, o senhor Presidente pelo anniversario de Sua Magestade o Imperador. A rua da Conceição ficou inchada de povo. O pateo do Palacio não cabia uma ponta de alfinete. O vento abria para os olhos enthusiastas o ouro-verde da bandeira desfaldada na varanda. Finalmente o supremo magistrado da Provincia, cercadinho de pessoas conspicuas e precipuas, appareceu para dar os três vivos da pragmatica. Recostou-se no balcão do sobrado, tirou o chapeu bicudo, estirou -o para baixo e bradou, esganisado, fanhoso, sizudo, - Viva S.M. e sr. D. Pedro II, Defensor Perpetuo e Imperador do Brasil! Viva nossa Santa Religião! Viva a Nação Brasileira!

A musica bateu o hymno. Aclamações, berros, vivas de puro amor patrio. Como a festa genethatica do Imperador fosse só aquillo, o povo prorrompeu em vivas ao Presidente. O doutor Alarico que enterrava o chapeu de dois biccos na cabeça, retirou-o e accenou. O viverio recrudescia. O presidente tonteado pelo sopro ardente da consagração popular começou a balançar a cabeça, agradecendo, agitando a mão esguia enluvada de branco. Os cabellos ondulavam ... E tanto viva foi urrado pelo povo e tanto o doutor Alarico mexeu a cabeça que a cabelleira, subito, desguardada, vôou para baixo. E na varanda, impassivel e mesureiro, o Presidente balançava um craneo nú, pontudo, brilhante, reluzente como ovo de avestruz.

Uma gargalhada espoucou seguida por recuo de Sua Excellencia, rubro e rapido, com as mãos na cabeça escalvada como o Morro Branco. Deram para chamal-o Alarico Pellado. Ou melhor, Larico Pellado. D'ahi em diante é que foi malcreação. Uma manhã perguntou por um sr. Chico Maria, funccionario da Secretaria. Responderam que não tinha chegado. O doutor Alarico enterrogava, bufando, os outros empregados.

- Eu vi, senhor sim. Seu Chico Maria estava tomando banho no Oitizeiro.

- Tomando banho no Oitizeiro? Um funccionario graduado, homem de familia? No Oitizeiro? Ajudante!

- Às ordens de V. Excia!

- Vá buscar Chico Maria neste tal de Oitizeiro e metta-o na cadeia. Desafôro!

- Mas seu Presidente ...

- Não me diga nada! Metta o bicho na cadeia. Chico Maria esteve horas preso, na sala livre da cadeia, pelo crime de ter tomado banho no Oitizeiro.

Uma noite alta o doutor Alarico accordou, levantou-se, vestiu-se e mandou buscar o ajudante de ordens. Mal este surgiu, declarou-lhe que desejava fazer uma ronda. Natal parecia um cemiterio.

Sahiram batendo as calçadas e pedras soltas.

Na treva o clarão dos vagos lampeões sangrava. Foram parar na Capitania dos portos. O Presidente, sorrateiro, collava o ouvido nas portas. De repente uma cachorrada furiosa surdiu do quintal e pegou-se às pernas do curioso dirigente. E o doutor Alarico correu como veado, saltando poças e mattapastos perseguido pela matilha.

Pela manhã pediu o comparecimento do capitão do Porto.

- Mandei-o chamar para lhe dizer que o senhor deve mandar matar todos aquelles cachorros.

- Por que, senhor Presidente?

- Isto aqui não é fazenda de criar boi. Mande matar os cães.

O capitão matou os cachorros.

Uma tarde encontrou-se no quintal do Presidente um papagaio lindo. Levado para sala, tratado a pirão de leite, o loiro ficou quieto, sem soltar um pio. Manhazinha o doutor Alarico, grave e serio, duro como um varapau, veio ver o passaro.
- Meu louro! Dê cá o pé! Papagaio real... E o bicho calado.

- Curupâpâco, pâpâco, ecô, ecô ... E o papagaio mudo.

O doutor Alarico perdeu a paciencia. Levantou a mão e soltou-a no bicco da ave silenciosa. Num vôo pezado e baixo o passaro atravessou a sala, passou a janella, subiu a copa das arvores esgalhadas. E de lá, tranquillo, seguro do sucesso, rodando os olhos cinzentos, arrufando a pennagem verde, estalou silaba por silaba:

- Larico Pellado! Larico Pellado!

Sua Excia partiu como uma bala, de bastão no punho, seguido de servos, procurando apear o gritador. Esvoaçando acima do alarido e da ameaça, o louro continuava.

- Larico Pellado!

E assim falou, teimoso, sereno, ininterrupto, desprezando os gestos bravios da famulagem e os berros doidos do Presidente.

- Larico Pellado!

Até que se resolveu viajar. Vôou longe, calmo, reunindo e proclamando a voz despersa do povo, face-a-face ao dr. Alarico José Furtado, vingando a multidão humilde no sarcasmo do ephitheto.

- Larico Pellado! Larico Pellado!

Desapareceu gritando o nome. Tinha desafrontado os natalenses.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Cláudia Magalhães responde a Rodrigues Neto

Por meio desta, pretendo responder às declarações do presidente da FUNCARTE, Rodrigues Neto, na edição do Novo Jornal, de 20 de fevereiro de 2010.

1- Rodrigues disse quanto ao ENE, atual ELE: “se houve negligência, a culpa foi da própria Cláudia Magalhães”. Ora, se eu era a coordenadora geral do evento, acredito que eu era a principal interessada em que o mesmo acontecesse e que fosse um sucesso. Ademais, como coordenadora, não tinha o poder para liberar dinheiro, fazer empenho ou poder político algum, quem os tinham ou tem são justamente, o presidente da FUNCARTE, Rodrigues Neto e a Prefeita, Micarla de Sousa.

2- Rodrigues Neto afirmou que “ao assumir a presidência do órgão, dei carta branca para Cláudia Magalhães seguir no projeto do ELE”. Se eu tivesse “carta branca” o ENE teria acontecido em novembro de 2009, não teria nem tempo para mudar de letra!

3- “Rodrigues Neto confirmou o ELE para os dias 29, 30 de abril e 1 de maio no Teatro Alberto Maranhão”, contudo a classe artística não sabe disso e a divulgação fraca atesta a falta de comunicação entre a FUNCARTE e os artistas. Quais os nomes dos escritores locais já convidados? Serão mantidos os nomes já confirmados para o evento ou eles também serão negligenciados pela FUNCARTE? Houve algum conselho para a escolha dos nomes? O conselho anterior (Carlos Fialho, Petit das Virgens, Margot Ferreira, Lívio Oliveira e Isabel Vieira) também foi negligenciado pela presidência da FUNCARTE?

4- Rodrigues diz que “Cláudia passou quase dois meses sem aparecer na capitania”. Ora, se foi assim por que não fui exonerada logo no primeiro mês de ausência? No fim das contas, eu pedi exoneração, assim como outros que não concordaram com a nova política da FUNCARTE. Mas a frase de Rodrigues é reveladora. Então ele aceitaria ou aceita na sua equipe pessoas que ficam dois meses sem aparecer? Interessante sabermos disso.

5- Rodrigues disse que tentou entrar em contato comigo. Ridículo. Meu e-mail e telefone estão na agenda do gabinete da FUNCARTE e na SEPLAN. Além disso, todo o mundo artístico cultural tem os meus contatos, inclusive o próprio presidente da FUNCARTE. Afinal, Rodrigues telefonou do número da presidência para o meu celular na noite de 16 de novembro de 2009 para pedir o telefone do meu marido, o jornalista Cefas carvalho. A conversa dos dois está registrada no blog de Cefas (www.cefascarvalhojornalista.blogspot.com) em postagem no dia 17 de novembro de 2009. Para completar eu e Rodrigues fazemos parte da comunidade social da internet, o Orkut, também um excelente meio de comunicação. Como muitas pessoas da sua equipe podem testemunhar, passei tardes inteiras em seu gabinete na esperança de ser atendida.

6- Rodrigues disse: “Ela sequer enviou e-mails para os escritores” Fiz bem melhor que isso, telefonei para os escritores informando a mudança do nome e da data e a confirmação de seus nomes no novo evento. Ficou acertado em reunião que eu não passaria e-mails e sim telefonaria para os escritores. Nesta reunião, além de mim e de Rodrigues Neto, estavam presentes o então presidente da FUNCARTE e já demissionário, César Revoredo, o chefe do departamento de atividades culturais, Josenilton Tavares, e o então assessor de comunicação, Dionísio Outeda.

7- Com relação aos concursos Câmara Cascudo e Othoniel Menezes, Rodrigues disse que “os editais dos concursos estão prontos e no início de março vamos convocar uma coletiva para divulgar as datas dos editais”. Os editais já estavam prontos desde setembro de 2009 e deveriam ter sido lançados em outubro/novembro do mesmo ano para que em março de 2010, no Dia da Poesia, fossem divulgados os vencedores, como foi prometido pelo então presidente César Revoredo, e pela prefeita Micarla de Sousa. Coletiva para divulgar os editais? Ridículo. Não há nenhum mérito nisso, esses concursos já são realizados há mais de vinte anos e com grande sucesso! Aliás, os concursos poderiam ser viabilizados com uma pequena fração dos recursos gastos no duvidoso Natal em Natal.

8- Sobre a revista GINGA, Rodrigues Neto não deu previsão. “Só vou lançar, quando tiver dinheiro para pagar e mantê-la”. Bem, as palavras de Rodrigues Neto atestam quase tudo que eu escrevi na carta e revelam a triste realidade da política cultural natalense!

Cláudia Magalhães

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Caminhos de Solidão

Alberto Maranhão




Petrópolis e Tirol nasceram assim:

A bela colina denominada o Monte tinha na ponta do norte uma casinha de porta e janela e fazia parte da propriedade Sítio do Jacob, adquirida pelo velho Jovino Barreto e herdada por seus filhos, entre os quais minha mulher.

Essa propriedade se prolongava até à de Joaquim Manuel e entre as duas mandei abrir a avenida que vai desde a atual praça Pedro Velho até o alto onde hoje é a
entrada para o Hospital, primeiramente, Jovino Barreto e, atualmente, Dr. Miguel Couto.

Depois da de Joaquim Manuel seguia-se a propriedade de Teófilo Brandão e depois, para o sul, a de Olimpio Tavares, hoje dos herdeiros de Antônio Ferreira Pinto, e por último a de João Olimpio, que já tinha então uma grande casa, onde morreu o padre João Maria.

Considerando a beleza da colina, lembrei-me criar o novo bairro e o fiz pensando na Petrópolis fluminense, dos veranistas do Rio, a cidade dos diários, e no nome de Pedro Velho, que antes de mim, já havia aconselhado ao seu amigo Joaquim Manuel Teixeira de Moura, Presidente da Intendência, como se chamava então o Prefeito, desbravando a atual Cidade Nova, abrindo ruas e avenidas em todo o planalto entre os Morros e a Cidade Alta.

Essas avenidas foram continuadas por mim, como Governador, inclusive a última que depois foi prolongada até Ponta Negra, conforme estou informado.

Já vendida minha casa de Petrópolis a Aureliano Medeiros, que a cedeu ao Estado para a fundação do Hospital, em virtude do parecer do Dr. Januârio Cico e outros que escolheram o local, construí minha nova casa no alto do terreno ondulado, entre as avenidas Hermes e Pena.

Outro aspecto oferecia o local, mas igualmente belo. Petrópolis com águas vertentes para o mar, para a Ribeira e para o planalto que se estende para o interior da península do Natal entre o Potengi e o Atlântico. E este, o planalto, no qual existem a lagoa de Manuel Felipe e a lagoa Seca, convidava o governo à criação de outro bairro para a expansão da Capital já comprimida na Ribeira e na antiga Cidade Alta.

Aliás, já algumas vivendas vinham varando a selva no prolongamento do antigo Caminho da Saúde, depois Rua Coronel Pedro Soares (hoje não sei que nome tem), a Betânia, a Pretoria, a Quinta dos Cajuais, a chácara de Cascudo (esta já construída por Herculano Ramos em bom estilo), a casa do Dr. João Chaves, a do major Miguel Seabra, José Pinto e outras anunciavam a preferência da região para residências, o que determinou também a Ferreira Chaves construir a Vila Cincinato e a Pedro Velho a Solidão, onde depois mandei instalar o Polígono de Tiro Deodoro.

A denominação de Tirol, ao bairro, foi uma simples fantasia sem justificação real.

Uma lembrança da província austríaca, qualquer coisa de reminiscência recalcada de leituras literárias, e nada mais. Era um pouco a mania do tempo. Manuel Dantas viu a Pretoria dos boers na sua casa da praça Pedro Velho, Pedro Soares a Betânia de Marta, Maria e Lázaro no casinholo que construiu no Caminho da Saúde, e por aí além.

O que não saiu da realidade bem medida de seu velho feitio, de equilíbrio, foi Antônio de Souza, que chamou de Quinta dos Cajuais a sua vivenda da praça Pedro Velho, onde realmente havia muitos e frondosos cajueiros de frutos magníficos de doçura e beleza.

A minha casa, essa, como tudo mais que por minhas mãos passam como coisa própria, já não é. Pertenceu depois de mim a Pio Barreto e da posse deste passou por arrematação para o Estado, devido à iniciativa de Pedro Soares, então Inspetor do Tesouro, que não deixou ser entregue por quantia insignificante a boa casa, com sua piscina de banho e seu poço tubular que lhe davam valor e comodidade. Sei que hoje é aí o Aero Clube.


Valem-me o prazer de ter conhecimento desse belo destino no prédio que construí no Tirol e, mais ainda, da destinação altruística de minha antiga residência de Petrópolis.


Master Plan de Polidrelli

Lúis da Câmara Cascudo


Pedro Velho batizou de Solidão a pequena casa que fez na vasta área que adquiriu junto à colina, e dentro dessa área havia um pontilhão de um metro sobre um riachinho de inverno com nome de Ponte de Tornis, outro Ercole, outro Lomas Valentinas, e por aí adiante uma loucura imaginativa. E dele também a denominação de Senegal à casa de Joaquim Manuel na parte baixa do Tirol, junto à Solidão, onde fazia no verão grande calor; e eu chamava de Covadonga o rancho que fiz em frente ao Senegal e vendi depois ao Artur Mangabeira. Era desse feitio a imaginação dos bandeirantes de Petrópotis e Tirol. Pedro Soares teve por aí também a Dinamarca se não me engano.

A rua Pedro Soares é a João Pessoa. Avenida Nilo Peçanha é a que liga a praça Pedro Velho à praçuela onde se ergue o Hospital Miguel Couto. A avenida Atlântica se chama Getúlio Vargas, cujo prolongamento desce para a praia do Meio (Morcego) e Areia Preta. Da Praia do Meio, em direção ao norte, parte uma avenida de contorno, a avenida Circular, novíssima, 1946, tarefa do Prefeito Sílvio Piza Pedroza. No Tirol morei de 1914-1932, na casa que Alberto Maranhão alude e frequentou. Vi ainda as tabuletas com os nomes dos sítios, em Tirol e Petrópolis, doces títulos de remanso que desapareceram, Pretoria, Silo, Anápolis, Solidão, Senegal, Betânia. Ainda em 1943 Alberto Maranhão foi mostrar-me sua casinha, Covadonga, perto do Solidão (Esquadrão de Cavalaria). Covadonga, reminiscência heróica de Pelaio e da resistência asturiana, é bangalô de gente rica.

Em 1904 o master-plan da Cidade Nova estava concluído, ampliando as medidas de Joaquim Manuel em fins de 1901. O relatório do secretário do Governo, H. Castriciano, datado de 14 de junho de 1904, já fixa os dois bairros quase no as­pecto dos nossos dias. Oito avenidas paralelas, com 30 metros­ de largura, comprimento entre 650 (avenida Alberto Maranhão) a 5.261 (a avenida Oitava) e quatorze ruas enxadrezando a Cidade Nova. A superfície aproximada ia a 1.648.510 metros quadrados, com sessenta quarteirões. O técnico era um agri­mensor italiano, Antonio Polidrelli, ave de arribação que es­palhou muita utilidade.


Com a estrada macadamizada de Parnamirim, 1941, ga­nhou a avenida Hermes da Fonseca projeção inacabável e, pelo símbolo do nome e do ponto, ainda fixou a maioria dos quar­téis construídos para alojamento da guarnição militar, multi­plicada pela ameaça de um assalto alemão à cidade, 1942-43.


A ligação Petrópolis-Tirol constituiu o próprio plano ur­banístico. As avenidas são comuns, nas grandes linhas horizon­tais, sem limites e divisões. O Alecrim pouco a pouco foi pro­longando as vias de acesso e articulando avenidas e ruas com a avenida Hermes da Fonseca. O Alecrim, depois da praça Pedro II (antiga Pedro Américo), desemboca no Tirol por onze avenidas diretas, desde a travessa Pedro Américo, que se con­tinua na avenida Alberto Maranhão, até o limite suburbano da cidade, a avenida Capitão-Mor Gouveia, onde finda a velha légua do Conselho, os 6.666 metros governados outrora pelo Senado da Câmara.


sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Cultura indignada

Carta Aberta sobre o antigo ENE, atual ELE

Natal, 19 de fevereiro de 2010


Aos escritores convidados, artistas, produtores culturais potiguares, jornalistas e amigos(as),

Na qualidade de Coordenadora do Núcleo de Documentação (Chefe da Biblioteca Pública Esmeraldo Siqueira), cargo que ocupei de janeiro de 2009 a janeiro de 2010 (quando fui exonerada a pedido), comunico a todos os citados acima que não faço mais parte da coordenação geral do ENE (Encontro Natalense de Escritores), atual, ELE (Encontro Lusófono de Escritores). Esta carta se faz necessária para esclarecer alguns pontos que dizem respeito ao meu relacionamento com o mundo cultural local e a sociedade em geral, aos quais devo prestar contas enquanto ocupante que era de um cargo público.

1- Por convite do então presidente da FUNCARTE, César Revoredo, aceitei a coordenação geral do então ENE. Portanto, auxiliada por um conselho formado por: Carlos Fialho, Petit das Virgens, Margot Ferreira, Lívio Oliveira e Isabel Vieira, foram enviados convites via e-mail (oficial da FUNCARTE, em nome do presidente César Revoredo, com cópia para o meu e-mail) para: José Eduardo Agualusa, Paulo Lins, Marçal Aquino, Arthur Dapieve, Xico Sá, Ziraldo, Pedro Bandeira, Marcelino Freire, Cassiano Elek Machado, Joca Reiners, Mário Bortolloto, Eduardo Bueno, Shiko, Fernando Bonassi, Milena Azevedo, Chico César, Tárick de Sousa, Edney Silvestre, Antônio Cícero, Tarcísio Gurgel, Gabriel O Pensador, Tácito Costa, Clotilde Tavares, Carlos Magno, Nivaldete Ferreira, Isabel Vieira, Túlio Andrade, Danilo Guanais, Buca Dantas, Abimael, Nei Leandro de Castro, Lívio Oliveira, Sérgio Vilar, Diogo Guanabara e Macaxeira Jazz, Agregados Família do Rap, Cordel do Fogo Encantado. Além do contato com diversos artistas plásticos, poetas e jornalistas que contribuiriam para o ENE.

2- Depois de meses de trabalho, com planilha total feita, convites prontos e confirmados com a garantia do então presidente César Revoredo, a prefeita Micarla de Sousa até então não tinha posição nenhuma sobre um possível cancelamento ou adiamento do ENE, o encontro literário estava confirmado para os dias 26, 27 e 28 de novembro de 2009. Contudo faltando poucos dias para o início do ENE, César Revoredo pede exoneração da FUNCARTE e o vice Rodrigues Neto assume.

3- Dias antes, fui chamada para uma reunião na qual César Revoredo, na presença do então vice presidente, Rodrigues Neto e do Chefe de atividades culturais, Josenilton Tavares, me comunica que não teríamos mais o ENE, e sim, o ELE e que este seria realizado em março de 2010. Confirmou o meu nome na coordenação geral do mesmo, onde manteríamos a participação de todos os que foram convidados para o antigo ENE. Desta feita, comuniquei – via telefone – aos escritores convidados a mudança do nome e da data. Além de pesquisar possíveis escritores internacionais para o ELE.

4- Contudo, após assumir a presidência da FUNCARTE, Rodrigues Neto não me procurou para confirmar ou retirar o meu nome da coordenação geral do ELE. Semanas depois, comunico ao vice presidente Gustavo Wanderley a minha decisão de sair da coordenação do ELE, mas de permanecer na função de chefe da Biblioteca Pública Municipal Esmeraldo Siqueira, visto que várias atividades por mim desenvolvidas na gestão de César Revoredo estavam em andamento ou com editais publicados, o que detalharei nos próximos tópicos.

5- Semanas depois, diante do silêncio apresentado, posto que o presidente Rodrigues Neto não teve nenhuma conversa oficial sobre o ELE e nem sobre outros assuntos do meu núcleo e também observando pela imprensa a conduta e a atuação da presidência, tomei a decisão de pedir exoneração em janeiro de 2010.

6- Uma vez tendo pedido exoneração surpreendi-me com contatos de escritores locais e nacionais, artistas e jornalistas me perguntando sobre o ELE. Percebi, então, que a presidência não comunicou a ninguém que eu não apenas não era mais a coordenadora do Núcleo de Documentação como também não estava mais na coordenação do ELE, antigo ENE.

7- Artistas e produtores culturais envolvidos em projetos que iniciei me procuram por e-mail e por telefone para saber detalhes dos mesmos. Projetos como o CONCURSO DE REDAÇÃO -“O que é ser um cabra das Rocas”, CONCURSO DE FOTOGRAFIA ESCRITORES POTIGUARES com o tema “Escritores potiguares vivos” foram negligenciados, e pior, não houve comunicação aos artistas envolvidos. No dia da Poesia, o qual fui coordenadora geral, O então presidente César Revoredo com a presença da prefeita Micarla de Sousa, comunicou a todos os presentes não somente a continuação dos CONCURSOS CÂMARA CASCUDO E OTHONIEL MENEZES, mas também, além da premiação em dinheiro, a publicação dos livros dos vencedores. Infelizmente, estes dois concursos também foram negligenciados.

8- Na gestão de César Revoredo o meu núcleo ficou responsável pela nova revista cultural da FUNCARTE, A “Ginga”. Ao longo de meses de trabalho, a revista, por meio do editor contratado, Sérgio Vilar com a sua equipe de jornalistas produziu 100% da revista que estava pronta para ir pra gráfica. Com a mudança da presidência a revista teve o lançamento adiado para março de 2010, eu soube disso através do editor Sérgio Vilar, pois nada me foi comunicado oficialmente.

9- Diante disso, por respeito a todos os que estavam envolvidos nesses projetos, aos artistas e amigos, torno todos estes fatos públicos, de maneira a evitar dúvidas, mal entendidos e conversas de bares e corredores que tanto empobrecem e aviltam a cultura natalense. Saio da FUNCARTE com a sensação do dever cumprido, com coragem de me olhar no espelho todos os dias e com o respeito do mundo artistico e cultural, bem mais precioso que consegui nestes meses de FUNCARTE.

Cláudia Magalhães

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Linhas do mando

Eduardo Alexandre

Foto: Hugo Macedo
Hugo Macêdo

Não sigo as linhas do mando,
Nem mando as linha a seguir.


Sou ser.
Sou gente.
Presente da mãe-natureza,
Ciente,
Do seu bem-querer.

Bem quero.
Bem amo.
E ando
Sem me prevenir.

Apanho.
Não ganho.
Confesso:
Não sei se sei resistir !

Me armo de flores na mão.
No verso,
Eu sei,
Aqui não há solidão.

Há clima.
Há luta.
Esperança de não ser em vão
O canto,
A vida,
O dia de dor do poeta,
Dia de dor da canção !
AMERICANO DO FUTURO
Eduardo Alexandre


Um astronauta travesso
No espaço dançou
Feito um John Travolta
De um espirro que deu
Comeu brilhantina
Foi mais triste ainda
Quando Meméia acordou
Fez pirlimpimpim
E num tubarão transformou
A espaço-nave
Que sem ser ave
Para o céu avoou
Carregando o rapé
Que o nego Pelé
Sem ter jeito vendeu
A um marciano
Filho de americano
Que Coca-Cola bebeu
Mais a Carmem Miranda
Que ensinava ciranda
Comendo banana
Ao entardecer
Do aparelho maluco
No lusco-fusco
Da minha TV !

Canção Edipiana

Foto: Marco Pólo

Canção edipiana
Eduardo Alexandre

A amar, aprendi na infância.
Na ausência do peito da minha mãe.
Aprendi, portanto, pela necessidade.
Pelos prazeres concedidos ao meu corpo,
Que satisfeito deixou-se evoluir em carícias.

Aprendi a amar pela boca.
E é através dela
Que manifesto o meu amor:
Digo quero, Digo amo.
E, assim, satisfaço a paixão
Do ardente coração
Que se desfaz em chamas
De saudade de você !
Foto: Yanê Heusi
Poesia
Eduardo Alexandre


Haverá dia
Em que os poetas se unirão e dirão:
Que triste talvez fosse a nossa criação
Se não fossem as epígrafes.
Em que os políticos se unirão e dirão:
Que triste talvez fosse a nossa criação
Se não fosse a História.
Que os jornalistas:
A compreensão dos fatos.
Em que os escritores:
A compreensão da vida.
Os políticos:
O poder de decisão.
Os poetas:
A compreensão da vida.
Em que todos:
A compreensão da vida.

Haverá dia na vida
Em que a vida
Encontrará amor
Conviverá a dor

Se fará poesia...




A CASA DO PESCADÔ
Poema Matuto
Bob Motta



A casa do pescadô,

nuis tempo de antigamente,

era quage uma tapera,

juro a vocêis, minha gente.

Piso de areia da praia,

na frente, a sua catráia,

a parte da sua lida;

na praia, ais vara infincada,

adonde era incolocada,

ais suas rêde istindida.



O balaio do pescado,

linha de mão e bichêro,

um banco munto bem feito,

de um tronco de um coquêro.

Sua amada se infeitava,

dispôi qui seu bãe, tumava,

mode isperá sua vorta;

cum o nariz já acustumado,

cum o chêro do seu amado,

iscorado ao vão da porta.



Tu recebia uis amigo,

ofertando in tua tóca,

pêxe frito no dendê,

cum café e tapióca.

Sendo tu, tão boa praça,

nunca fartava a cachaça,

cum um camarãozíin torrado;

ais vêiz, um cardo de ostra,

uma gostosa lagosta,

ô um bom pôlvo insopado.



Era verso, era poema,

serenata, canturia,

nais noite de lua cheia,

tu amanhincia o dia.

Cantando prá tua amada,

na fuguêra improvisada,

ao som do teu violão;

acumpanhando o teu canto,

teus zóio virtia o pranto,

carregado de emoção.



Sua vida amiorô,

no prano materiá,

tu viu tua casa de páia,

num bagalô, se torná.

Hoje, in busca do pescado,

teu barco é motorizado,

tem inté câmara fria;

ninguém vai mais te isperá,

pois tu fica in arto má,

pescando, cinco, seis dia.



Tua casa tem micro ôindia,

geladêra, televisão,

mode cunzinhá teu pêxe,

forno de luxo e fugão.

Teu balaio do pescado,

hoje é um frize abarrotado,

pois quando tu vai pescá;

tua muié num se quêxa;

e o bicho, quage num fêcha,

cum pêxe e fruito do má.



Hoje tu nem tem mais tempo,

de mais ela, chamegá.

Tua conta no banco é gorda,

mais num apode apruveitá.

Tu num tem mais um lazê,

pescadô véio, a você,

eu juro, sem atrapáio;

meu irmãozíin pescadô,

mêrmo no teu bangalô,

tu é iscravo do trabáio.



Aí, eu fico pensando,

e matutando, na minha,

na sodade qui tu sente,

de tua antiga casinha.

Nela, num tinha confôrto.

mais tôda noite, abissôrto,

agarrado ao teu amô;

tu tinha, a bem da verdade,

munto mais felicidade,

do qui hoje, in teu bangalô...


NATAL-RN

16.FEV.2010
Cinzas chegando

faça de conta que eu fiz de conta.
a mentira é uma verdade,
no final das contas.

ac



Cinzas chegou


não sei qual condição mais me revolta:

se é estar a um passo da partida

ou a um da volta.

ac


Cinzas se foi...

antes que eu não caiba mais,
transborde-me o pensamento.
saia. não seja mais lembrança.
e trate de afogar a outra margem:
o peito meu.

Antoniel Campos

Natal em 1872




Natal há cem anos passados

Veríssimo de Mélo

Sobre a festa do Natal, o autor refere que saíam às ruas o Bumba-meu-boi, o samba, o maracatu e o batuque. A referência ao maracatu é curiosa. Sabíamos da existência do tradicional maracatu no Recife, e, mais recentemente, em Fortaleza.

Como seria Natal há cem anos passados? Quais as dimensões da cidade, topônimos, festas, superstições, costumes, condições gerais de vida da Província do Rio Grande do Norte aí pelos idos de 1872?

Temos agora em mãos um depoimento de valor histórico, que nos permite visão e comentário em torno dos aspectos mais interessantes da nossa cidade, naqueles velhos tempos.

Documento que não vimos citado pelos nossos historiadores, mas que tem valor não somente histórico, mas igualmente sociológico e antropológico. Trata-se do capítulo "Natal do Meu Tempo", do livro "MEMÓRIAS E DEVANEIOS", de autoria de Lindolpho Câmara, editado em 1938 no Rio de Janeiro. (Devemos ao dr. Marciano Freire a lembrança de nos permitir compulsar o documento).

Esse Lindolpho Câmara, estamos sabendo agora, era homem probo, ligado à tradicional família Câmara, do Estado, tendo exercido postos os mais elevados no funcionalismo provincial e federal.

Comparando-se os dados históricos de Lindolpho Câmara com os do historiador Manoel Ferreira Nobre, ("BREVE NOTÍCIA SOBRE A PROVÍNCIA DO RIO GRANDE DO NORTE"-1877), vemos que eles se completam e ampliam as informações sobre a época. Ferreira Nobre foi o nossso primeiro historiador. Seu livro já obedece a uma sistemática, atendo-se, preferentemente, aos aspectos políticos, educacional, administrativo e sócio-econômico da Província. Lindolpho Câmara, embora consigne alguns dados estatísticos sobre a cidade, estende-se mais a respeito de costumes e tradições. Seu depoimento, menos extenso, é mais pitoresco, mais vivo do que o de Ferreira Nobre. Em muitas passagens, escreve com objetividade e graça.

A primeira impressão de Lindolpho Câmara sobre Natal é a respeito da extrema pobreza da população. Em 1870, a cidade contava 12 mil almas. A população total da Província, segundo o censo de 1872, por ele citado, elevava-se a 233.960 habitantes, número quase idêntico ao que nos dá Ferreira Nobre.

Os que aqui nasciam, diz o autor, em face da precariedade do meio, só tinham condições de ser pescadores, roceiros ou soldados de Polícia. O comércio era pobre. Não havia água encanada, nem esgoto, nem luz. Os poucos lampiões existentes, que queimavam azeite de mamona, antes do querosene, não se acendiam em noites de lua... O 33º Presidente da Província, Henrique Pereira de Lucena, em 1872, pronunciava-se tristemente sobre Natal: Vila insignificante e atrasadíssima do interior”. Daí o trocadilho da época sobre Natal: Cidade? Não-há-tal.

A respeito da mendicância, Lindolpho Câmara afirma, simplesmente, que não havia em Natal, porque ninguém tinha o que dar... Nesse sentido, evoluímos muito.

Natal constituía-se da Cidade Alta e da Cidade Baixa ou Ribeira. As tradicionais lutas entre xarias e canguleiros são mencionadas pelo autor como fato de um século atrás, embora nada tenha visto a respeito. Além dos prédios públicos principais, a casa dos governadores, a Câmara e Cadeia e o Erário, só existiam quase as mesmas igrejas de hoje: a da Matriz, de Santo Antônio, do Rosário e do Bom Jesus.

Os nomes de logradouros e ruas foram quase todos mudados, o que é lamentável, pois eram mais bonitos do que os atuais. O Canto do Mangue, por exempIo, era chamado o Canto das Jangadas. E as ruas principais eram a da Tatajubeira, das Virgens, das Laranjeiras, do Fogo, Rua Grande, Praça da Alegria, Rua da Palha, Rua Nova, Rua dos Tocos, Uruguaiana, Beco Novo. Os logradouros mais famosos eram o Baldo, a grande piscina pública, e o cais do Passo da Pátria, onde ancoravam as embarcações vindas do interior. A única devoção popular conhecida era a da Santa Cruz da Bica, hoje decadente. Há referência a uma lagoa de José ou João Felipe, e que deve ser a atual lagoa de Manoel Felipe.

Os dois mercados existentes eram precários: O da Ribeira funcionava debaixo de uma velha Tatajubeira. O da Cidade Alta, à Rua Nova, sob “frondosas gameleiras”. As medidas e pesos usados na época eram a cuia, a vara e a libra. As moedas eram o xenxém de 10 réis; dobrões de cobre de 20 e 40 réis; notas de 1$000 e 2$000; sendo que a unidade era pataca, equivalente a 16 vinténs.

Lindolpho Câmara faz uma afirmação importante do ponto de vista financeiro: “Naquele tempo, tudo era barato, menos o dinheiro.” É que a desgraçada da inflação ainda não tinha sido inventada pelos economistas...

COMER E BEBER

Parece oportuno verificar o que comia e bebia o natalense há cem anos passados: As frutas, os peixes, o doce, as bebidas, os pratos típicos.

Nos dois mercados, além da feira no Passo da Pátria, encontravam-se várias frutas apanhadas nos sítios e matas em redor da cidade. Umas abundantes ainda hoje. Outras, já raras. Por exemplo: Eram e continuam abundantes, a mangaba, os cajus, cajaranas. Mas já não é fácil, nos mercados, frutas como a massaranduba, guabiraba, camboins, oitis, ingás de corda, como ele chamava. E outras que até desconhecemos, como as ubaias e os guajerus. Todavia, para colher essas frutas, havia que enfrentar os inimigos traiçoeiros dos matos: as formigas de fogo, cobras nas moitas e vespas na galhada. As caças mais abundantes na época eram os jacus, inhambus, cotias e tatus.

Diz Lindolpho Câmara que não havia terra com maior abundância de peixes e crustáceos do que Natal daquela época. Trazidos pelas jangadas dos pescadores, enumeravam-se a cavala, o dentão, a cioba, o pargo, a pescada, a bicuda, o dourado, a corvina, o beijupirá e o cação. Nas praias, através dos currais ou da pesca de arrastão, com tresmalhos ou tarrafas, estavam as tainhas, sardinhas, espadas, palombetas, galos, carapebas, carapicus, bagre, baiacu, agulhas e agulhões. Pescados nos mangues e recifes da Fortaleza, lembra os camarões, lagostas, lagostins, caranguejos, siris e aratus. Outras variedades eram os ouriços, ostras, mariscos, unhas de velho e polvos. De Ponta Negra, apesar da "longitude da travessia", vinham os xaréus. Quanto à carne verde, o autor informa que eram abatidas duas rezes nos dias comuns e três, do sábado para o domingo e dias festivos, para toda população.

A venda dos peixes, nos mercados, era feita tradicionalmente anunciada pelo eco de um grande búzio, "soprado por sujeito de fôlego e que estrondava pela cidade silenciosa até os seus confins".

Os pratos típicos mais famosos parece que eram as "dobradinhas", "cobiça dos gastrônomos", diz o autor, feitas com "livros" ou "folhoso". A propósito desses "livros", conta uma anedota de certo tipo popular, o negro Moisés, servente ou oficial de justiça, que andava sempre de sobre-casaca e cartola. Ao cruzar com o juiz de direito, sobraçando um "livro" (estômago de boi), indagou a autoridade:

- O que levas aí, é a Bíblia? Resposta rápida do negro:

- Não senhor, é o Código Penal.

O autor faz referências a outros pratos cuja fama chegou até nós: os mocotós, para as mãos-de-vaca ou panelada; os miolos, para as fritadas; as tripas e Iínguiças.

Das bebidas, só há registro da cachaça de Papari, que ele chama "a deusa dos ébrios", e a "Iaranjinha". Para as pessoas de categoria, havia a "genebra de Holanda", importada em botijas de barro vidrado.

Já há cem anos certas bebidas se confundiam com remédios poderosos: a genebra era receitada também para cólicas intestinais, defluxeiras, espinhela caída, maus-olhados, sarampo e bexiga recolhida... Hoje, a cachaça corta resfriado e o uísque é bom para o coração...

Em matéria de fumo, o melhor cigarro era o de fumo picado em papel de milho. Só o nome depreciativo chegou até nós: Era o mata-rato...

SERENATAS E TERTÚLIAS

Há cem anos passados, Natal apresentava alguns costumes e tradições que chegaram até nós. Outros, porém, já se diluíram no tempo. Praticamente desapareceram da cidade em crescimento.

Claro que ainda hoje, por exemplo, temos serenatas e tertúlias (estas com outros nomes). Mas os “Cantões”, - de que nos fala Lindolpho Câmara, - já desapareceram. As festas de São João e Natal ainda persistem embora perdendo sempre o brilho e o entusiasmo de antigamente.

Examinemos.

As serenatas, há cem anos atrás, nas noites de lua, eram feitas ao som de violões, flautas, clarinetes e pistões. (Ora, quem sair, nos dias de hoje, com piston e clarinete, pela madrugada, estará muito arriscado a ser levado pela Rádio-Patrulha. A lei do silêncio será logo lembrada, pelo telefone.

Lindolpho Câmara nos fala com tal entusiasmo das serenatas do seu tempo, que chega a afirmar: “... até as pedras das calçadas se levantavam para ouvir” os seresteiros.

Cantavam coisas assim:

“Linda deidade

chega à janela,

vem ver a lua

Como está bela.”

(A lua, coitada, depois que os astronautas estão lá dentro, já está meio desacreditada pelas moças).

Mas frisa o autor que não era só a janela que se abria para os seresteiros. Era a porta, para deixar entrar "o bando canoro". E o trago de vinho do Porto era servido a todos, "em um copo único” .

A tradição do copo único, que já não existe, lembra a do mate gaúcho, servido de igual maneira. Com a divulgação dos princípios de higiene, ninguém mais se arrisca a beber no copo usado até mesmo por uma donzela ...

As festinhas familiares de hoje, aniversários, comemorações de qualquer espécie, entre amigos, eram chamadas antigamente de "tertúlias". Lindolpho Câmara refere que a falta de clubes recreativos na cidade determinava as comemorações caseiras. Parece que esse não era o motivo principal. Hoje, a cidade está cheia de clubes e as festinhas familiares continuam. São as mais gostosas.

Naquele tempo, já se recitava ao som de Dalila, um dedilhado ao violão, que chegou até nós. Alguns conservadores ainda fazem questão da Dalila, para recitar besteira.

Numa dessas tertúlias, há cem anos passados, o autor lembrou distinta dama da sociedade, que a todos encantou interpretando uma melodia e acompanhando-se ao violão. Atualmente, de tanto "encher" a cidade as Maysas Matarazzos e outras vedetes do gênero, é mais aplaudida a dama que não canta e nem toca violão.

Os "Cantões" eram reuniões permanentes de pessoas amigas, nas calçadas de certas residências, para bater papo e falar da vida alheia. O mau hábito de falar da vida alheia é universal e eterno. Mas em Natal, já agora, não se fala apenas em locais determinados. Fala-se por toda parte.

Lembra Lindolpho Câmara o "cantão" famoso do capitão José Antônio de Souza Caldas, na cal-çada da sacristia da Matriz. O capitão, que morava defronte, fornecia as cadeiras e a turma se reunia, toda tarde. Era uma roda de conservadores, diz o autor, o que excluía os liberais da época.

Sabemos hoje, de raros casos de pessoas distintas de Natal, que ainda se reúnem em cadeiras nas calçadas, para papear. Mas, Deus nos livre de citá-Ios nominalmente e nem lembrar de quem ali se fala e toda a cidade sabe no dia seguinte ...

O perigo maior de sentar na calçada, nos dias atuais, para falar da vida alheia, não é tanto devido à possível repercussão dos assuntos tratados. O perigo mesmo está na passagem dos chamados"playboys ", com suas máquinas voadoras, podendo levar todos nós de roldão, para o beleléu ...

SÃO JOÃO E NATAL

Duas grandes festas do povo, na cidade, há cem anos passados, eram também o São João e o Natal, afirma o memoralista Líndolpho Câmara.

No São João, acendiam-se as fogueiras diante dos lares pobres ou remediados, para assar o milho verde e as batatas doces. Dentro das casas, armavam-se altares de banqueta, com a efígie de São João ao alto. Entoavam-se cantos alusivos à data e na mesa de jantar estavam os pratos de canjica e bolos os mais variados.

Moças e rapazes tiravam sortes, - como ainda hoje, - para saber com quem casavam. À meia-noite, diante do altar, cumpria-se velha superstição: Todos deveriam olhar um espelho, para verificar se viam a própria cabeça. (É claro que todos a viam). Mas afirmava-se que, aquele que não a visse, deveria logo mandar encomendar o caixão mortuário ... Variante da mesma alusão, que já registramos no passado, mandava que se olhasse para o fundo de uma jarra com o mesmo fim.

Sobre a festa do Natal, o autor refere que saíam às ruas o Bumba-meu-boi, o samba, o maracatu e o batuque.

A referência ao maracatu é curiosa. Sabíamos da existência do tradicional maracatu no Recife, e, mais recentemente, em Fortaleza. Mas nunca tivemos notícia de maracatu em Natal. Pena que o autor não tivesse descrito o folguedo popular.

Nas casas de famílias, armavam-se os "vistosos presépios", a nossa verdadeira tradição latina, hoje praticamente substituída pelas chamadas "árvores de natal", pagãs e sem qualquer vinculação com a tradição brasileira e portuguesa.

À meia-noite, informa Lindolpho Câmara, serviam-se as comidas típicas, algumas "hoje" quase desconhecidas: os pastéis de carne de porco, o chouriço, os doces secos, os sequilhos, as castanhas de caju confeitadas.

Os cordões das Pastorinhas invadiam as casas, entoando os cânticos tradicionais:

"Entrai, entrai Pastorinhas,

entrai, entrai em Belém,

vinde ver nascido

Jesus, nosso Bem".

É preciso considerar o comportamento das moças nessa época, segundo refere o autor. O recato era rigoroso: ''Não podiam por o pé fora do sapato, não podiam cruzar as pernas, nem falar alto nem comer qualquer iguaria à porta ou à janela, nem olhar para rapazes". O namoro era considerado indecoroso. As moças só casavam com quem os pais determinavam.

Conta, a propósito, o que se verificou na casa do Dr. Loló, senhor de engenho no Ceará-Mirim. Certo dia, apareceu um sujeitinho para pedir a mão de uma das suas filhas em casamento. Dr. Loló reuniu as meninas, avisou-as antecipadamente de que não deveriam aceitar a proposta e mandou-as para a sala. Falou na presença de todos:

- O sr. Manuel veio pedir uma de vocês em casamento. Qual a que quer?

- Eu não quero, disse uma.

- Eu também não, disse outra.

Então o Dr. Loló exclamou diante do fracassado pretendente:

- Está vendo, Manuelzinho, elas não querem. Não posso satisfazer o seu pedido, embora fosse muito do meu agrado ...

Mas, apesar disso, é fora de dúvida de que as moças namoravam e casavam, vencendo ou driblando os obstáculos paternos. E havia muitas que fugiam, exatamente como hoje.

MEIOSDE COMUNICAÇÃO

Quanto menor a cidade e mais pobre, mais precários são os seus meios de comunicação. Por aí já se tem uma idéia de como seriam os veículos de comunicação na velha cidade do Natal, há cem anos passados.

Das memórias de Lindolpho Câmara, que estamos comentando, destacam-se, nesse sentido, os sinais semafóricos, através do telégrafo ótico da Catedral e o movimento dos carretos à cabeça, em animais e carros de bois.

Esse telégrafo, por meio de bandeiras e cores, montado no alto da torre da Matriz, foi também um dos nossos alumbramentos na meninice. Muitas vezes, ficávamos horas esquecidas sentados no telhado de casa, só prá ver os escoteiros mudar as bandeiras coloridas. Mesmo sem entender o significado dos sinais, estamos convencidos, hoje, de que aquele serviço foi, na verdade, a nossa primeira TV a cores.

Temos agora em mãos o folheto intitulado "CÓDIGO DO TELEGRAFO ÓPTICO", trazendo o decreto estadual n.º 156, de 18 de novembro de 1921, do Governador Antonio J. de Mello e Souza, que restabeleceu o serviço semafórico, sob a direção da Associação dos Escoteiros do Alecrim.

Segundo as "explicações", o telégrafo começaria a funcionar a "um quarto antes do nascimento do sol terminando um quarto de hora depois do ocaso". São centenas de convenções, de acordo com o Código Marítimo Internacional. Mas o nosso, da Catedral, só empregava três bandeiras – azuis e vermelhas, quadradas e em forma de quadriláteros, - e três galhardetes.

Entre outras informações, os sinais indicavam a saída e entrada dos navios; se eram de guerra ou transporte; nacionalidade; se estavam passando noutra direção ou vinham ancorar em Natal; se havia enfermo a bordo; se pediam o prático; nome da embarcação e da companhia de navegação, etc. Havia até um sinal que indicava se o navio batera na “baixinha”, a pedra famosa onde encalharam várias embarcações.

O telégrafo ótico prestou serviço real à população natalense desde o século passado até, talvez, a década de trinta.

Sobre os outros meios de comunicação, convém registrar a observação de Lindolpho Câmara quanto ao nosso primeiro carro de passeio.

Afirma que, há cem anos passados, Natal não dispunha de um só veículo para tráfego na cidade. Tudo era feito a pé ou em animais. E ninguém cogitava de adquirir nem mesmo "uma caleça ou um tilbury".

Daí, relata coisas incríveis como estas: O Presidente da Província, com o seu séquito, partia a pé, do Palácio (na rua do Comércio, na Ribeira), subia a ladeira e vinha abrir a sessão da Assembléia Legislativa na Cidade Alta. Diz ele: " ... chegavam esbaforidos, suarentos, que quase nem podiam subir as escadas do edifício... " Finda a cerimônia, tornavam pela mesma rota ao Palácio.

Os enterros eram penosos, acrescenta. Todos "chegavam deitando a alma pela boca, menos o defunto". Os casamentos "eram ridículos": Todo mundo a pé, inclusive os noivos, na frente, subindo e descendo ladeira, dando topadas nas pedras pontudas ...

Só nas proximidades da proclamação da República, o dr. Celso Caldas, médico, adquiriu um carro usado, no Recife, nele atrelando dois cavalos magros. Fazia as visitas aos doentes nesse carro e também passeava, emprestando-o, muitas vezes, para cerimônias oficiais.

Em conclusão: Foi esta a imagem que pudemos inferir de Natal há cem anos passados, segundo o depoimento do Dr. Lindolpho Câmara. Era, positivamente, uma cidade pobre, desprovida dos meios mais elementares ao desenvolvimento urbano. De certa forma, refletia a influência do plano nacional. Todavia, nestes cem anos de existência, Natal cresceu e desenvolveu-se muito mais do que poderiam imaginar os já nascidos nas primeiras décadas deste século XX.

Daqui a cem anos, isto é, no ano de 2072, o que dirão de nós os nossos pósteros?

Possivelmente, ainda nos considerarão subdesenvolvidos como nós achamos hoje os nossos ante-passados do ano de 1872. E assim é a vida ...

Instituto de Ciências Humanas – UFRN - ICH Revista, Natal, v.1, n.3, jul. 1972