quinta-feira, 31 de março de 2011

As avenidas numeradas do Alecrim


Alecrim
As Avenidas Numeradas Vêm desde a Criação do Bairro
Itamar de Souza

Na parte mais alta do Alecrim, as avenidas e ruas foram traçadas em forma de xadrez à semelhança do que foi realizado nos bairro Petrópolis e Tirol no início do século XX.
...
As avenidas do Alecrim, a partir da Presidente Quaresma, receberam a numeração de 1, 2, 3, 4, 5 até chegar a 18. Foram igualmente numeradas as artérias que cruzam estas avenidas no sentido Leste-Oeste. Quando foi realizado este traçado e a numeração destas avenidas e ruas? Tudo indica que ele foi feito antes da criação do bairro do Alecrim. Já vimos que este bairro foi criado em 1911.

Certa vez, disse-me o Dr. Boanerges Soares de Araújo, advogado e estudioso do passado de Natal, que o traçado das ruas e avenidas do Alecrim foi obra do arquiteto Antônio Polidrelli, o mesmo que foi contratado pelo governo municipal para o traçado da Cidade Nova (Petrópolis e Tirol, de hoje), em 1903.

Entretanto, confesso que nunca conheci nenhum documento que me confirmasse, ou não, este depoimento do Dr. Boanerges Januário Soares de Araújo. No entanto, encontramos, no jornal A República, vários pedidos de aforamento de terreno dirigidos à Intendência Municipal de Natal, onde surgem as avenidas numeradas antes de 1920. Assim, em maio de 1907, “Manoel Alexandrino Cândido, requerendo aforamento de um terreno [...] na estrada que liga o Lazareto a avenida 8” (A República, 18 de maio de 1907, p. 3).

Em 1912, as provas são abundantes. Assim, em agosto daquele ano, o jornal A República, no dia 22, trazia o seguinte registro: “Antônio Bertulino de Souza, aforamento de um terreno, na avenida 1, no subúrbio”.

No dia 29 de agosto de 1912, o mesmo jornal trazia outros pedidos de aforamentos nos seguintes termos:

Richards Burgers, requerendo aforamento de um terreno na avenida n.º 2, no subúrbio, limitado pelo sul com a avenidade nº. 15 e pelo oeste com Perceval Caldas (...); Richards Burgers, requerendo aforamento de um terreno na avenida Jaguarary, no subúrbio, limitado pelo norte com a avenida n.º 2; Erneste Walter Link, requerendo aforamento de um terreno na Estrada de São José, no subúrbio desta capital, limitado pelo sul com a avenida de n.º 2.
No dia 2 de outubro de 1912, o mesmo jornal trazia o seguinte registro: “Pedro Rufino dos Santos, requerendo aforamento de um terreno ...
Diante de tantas provas, não podemos concordar com aqueles que sustentam, por dedução, que a numeração das avenidas e o seu respectivo traçado, teriam sido feitos em 1929, quando Giacomo Palumbo fez o Plano de Sistematização da cidade.

Presidentes e Tribos Indígenas são as Novas Denominações

Em 1929, quando o Dr. Omar O’Grady, prefeito de Natal, contratou o arquiteto Giacomo Palumbo para fazer o Plano de Sistematização da Cidade, solicitou, ao mesmo tempo, ao Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, que sugerisse nomes de personagens históricos para se fazer uma denominação mais racional das ruas de Natal e, particularmente, do Alecrim, bairro em expansão.

Em atendimento a este pedido, o Dr. Nestor dos Santos Lima, presidente do Instituto Histórico, relacionou 167 nomes históricos e os entregou ao prefeito (A República, 16 de julho de 1930). Por conseguinte, foi baseado nestas sugestões que a Prefeitura de Natal colocou, no Alecrim e no bairro de Lagoa Nova, nomes de presidentes da Província do Rio Grande do Norte, isto é, nomes de pessoas que governaram o nosso Estado no período colonial e durante o império.

Iniciativa semelhante foi tomada em relação às nossas tribos indígenas, quase todas dizimadas no século XVII, ao tempo da Guerra dos Bárbaros.

A colocação dos nomes dos presidentes da Província e das tribos indígenas ocorreu entre as décadas de 30 e 40.

A partir desta época, a avenida 1 passou a se chamar Presidente Quaresma, homenagem a Basílio Quaresma Torreão, que governou a Província de 1833 a 1836.

A avenida 2 mudou para Presidente Bandeira, homenagem a João Capistrano Bandeira de Melo Filho, que governou a Província de 1873 a 1875.

A avenida 3 passou a se chamar Presidente José Bento, homenagem ao presidente José Cunha Figueiredo Junior, que nos governou de 1860 a 1861.

A avenida 4 tomou o nome de Presidente Sarmento, que administrou a Província de 1845 a 1847. Seu nome completo era: Cassimiro José de Morais Sarmento.

A avenida 5 recebeu a denominação de Leão Veloso, em homenagem ao presidente Pedro Leão Veloso que governou a Província de 1861 a 1863, e assim por diante.

A homenagem às Tribos Indígenas começa com a rua dos Canindés, antiga avenida 6; rua dos Caicós, antes, avenida 7; rua dos Pajeús, antiga 8; rua dos Paianazes, antiga avenida 10; e rua dos Paiatis, antiga avenida 11.

A avenida Cel. Estevam chamava-se, antes, avenida 9. As denominações da Amaro Barreto e Mário Negócio tomaram o lugar da avenida 12.

Parelhas



Parelhas RN

Durante o período da ocupação holandesa no Rio Grande do Norte, os índios das tribos guerreiras dos Canindés e Janduís habitantes pioneiros da região, aliaram-se aos invasores. Com o advento do levante indígena chamado Guerra dos Bárbaros, chegaram ao território vários destacamentos armados, comandados por Domingos Jorge Ve...lho, com o objetivo de acalmar a região.

No ano de 1690, as tropas lideradas por Afonso Albuquerque Maranhão conseguiram derrotar o tuxama da tribo Canindés e mais de mil guerreiros. Após a derrota, os índios sobreviventes foram conduzidos para o litoral.

Com a tranqüilidade restaurada os primeiros povoadores, procedentes das redondezas do rio São Francisco, chegaram e se instalaram às margens do rio Seridó atraídos pela qualidade das terras propícias a agricultura e à criação de gado. O Tenente Francisco Fernandes de Souza que chegou à região nos idos de 1700, é considerado o mais antigo entre os pioneiros moradores do território.

Em 1850, a Fazenda Boqueirão de propriedade do Sr. Félix Gomes Pereira era considerada um ponto de encontro de boiadeiros com destino à Paraíba e de cavaleiros que passavam sistematicamente para a feira de Conceição do Azevedo (hoje Jardim do Seridó). Nos caminhos da Fazenda Boqueirão havia uma ampla estrada onde os cavaleiros e boiadeiros costumavam experimentar a velocidade de seus cavalos, correndo lado a lado, pegando parelha, surgindo assim o nome da localidade.

Uma terrível epidemia do Cólera Morbus se alastrou por todo o território do Rio Grande do Norte, em 1856, e Sebastião Gomes de Oliveira e Cosme Luiz, moradores das redondezas, fizeram a promessa de construir uma capela consagrada a São Sebastião, se lhes fosse concedida a graça de escapar do flagelo. Desaparecida a peste a capela foi construída originando, conseqüentemente, o surgimento de várias casas ao seu redor. Em 1888, o padre Bento Pereira de Maria Barros realizou no povoado a primeira feira e o povoamento de Parelhas, a terra da ampla estrada dos cavalos emparelhados, estava virando realidade.

Em 26 de novembro de 1920, pela Lei n° 478, o povoado de Parelhas foi elevado à categoria de vila tendo sua freguesia criada no dia 8 de novembro, de 1926. Por força da Lei n° 630, o povoado foi desmembrado do município de Jardim do Seridó tornando-se município.

Fonte: Idema-RN

Seminaristas de São Pedro na Fortaleza

quarta-feira, 30 de março de 2011

Milagre de Dom Adelino


Esta foto pesquei num site comemorativo ao centenário de Dom José Adelino Dantas. É uma foto rara, importantíssima para a história da Fortaleza dos Reis Magos.
Na legenda, a indação: Seminaristas do seminário São Pedro, Natal, RN, em visita a ruínas (Cunhaú?).
Não. Fortaleza dos Reis Magos.
Tudo o que eu estava buscando era uma foto antiga da Igreja de São Pedro, Alecrim, para ilustrar um depoimento antigo sobre o bairro natalense, o quarto da cidade.
Encontrei foto maravilhosa do 1º Centenário da Igreja de Parelhas (postagem anterior) e esta que é de uma visita dos seminaristas "de São Pedro" à fortaleza da barra do rio grande.
É uma foto de antes da restauração, a fortaleza deixada ao tempo para consagrar-se para a História do Brasil: pedra guardiã e consolidadora de nossa nacionalidade.
Nela, a capelinha que resistiu ao tempo, mas não à restauração. Foi-se a estrutura perecida, ficaram os alicerces que a arquitetura protecional hoje recomenda.
Não me lembro de registro tão precioso da capelinha do forte como esta foto. Milagre de Dom Adelino.

Eduardo Alexandre

terça-feira, 29 de março de 2011


A 14 de maio de 1929, Natal aguardava a chegada do "Jahu"


A HISTÓRIA DA AVIAÇÃO NO RIO GRANDE DO NORTE
TARCÍSIO MEDEIROS




(...)


Fins de abril, maio, junho de 1927, foram dias movimentadíssimos em Natal e para o mundo, por acontecimentos inusitados, envolvendo a avião da época.


Ao mesmo tempo, em regiões diferentes, eram programados vários vôos transoceânicos, abrindo "manchetes" nos jornais de todos os países.


Para a travessia do Atlântico Sul, interessando o brasil particularmente, estava o avião brasileiro "Jahu", tripulado e de propriedade de João Ribeiro de Barros, paulista de 26 anos; com os companheiros João Negrão, de 26 anos; Vasco Cinquini, filho de italianos, porém brasileiro de nascimento, com 27 anos, mecânico do campo dos Afonsos e o Capitão Newtom Braga, com 42 anos.


O raid seria Gênova-Dakar-Natal até Rio de Janeiro. Preparado para o mesmo salto, de Rue (França)-Dakar-Natal, também desde abril, estava pronto o Marquês de Saint-Roman, com o 'Paris-Amérique-Latine'.


Pretendendo a travessia do Atlântico Norte, Europa-América do Norte, os franceses Nungesse e Coli tinham preparado o "Pássaro Azul", e de New York para Paris, Charles Lindbergh, o 'Saint-Louis', estando em jogo um prêmio no valor de 25.000 dólares.


Da Inglaterra, os Tenentes Carr e Gilman preparavam o vôo Inglaterra-Índia. Da Espanha, chegavam notícias da circunavegação do globo pretendia por Ruiz Alba e Padelo Roda.


Como se nota, estava-se presenciando um momento histórico da aviação: A conquista do espaço intercontinental contra o tempo numa provação de coragem humana e valorização de suas máquinas.


O "O Jahu" depois de fazer o percurso Gênova-Dakar sem acidentes, pelas 3,45h do dia 29 de abril, largava de Porto Praia para Natal. Estações de rádio mais variadas, montadas por todo o brasil e, especialmente em Fernando de Noronha, espalhavam notícias constantes da travessia, esperando-se que batesse o feito anterior do "Argos", então festivamente acolhido no Rio de Janeiro, e que chegasse primeiro a Natal do que de Saint-Roman.


Durante a tarde do mesmo dia, silenciaram as comunicações. O povo dormia nas calçadas dos jornais de várias cidades, aguardando notícias. Somente no dia seguinte, soube-se que o "Jahu", pelas 17:30, caíra a 100 milhas de Fernando de Noronha, por ter rompido uma hélice de um dos motores.


O navio "Belvedére", que passava no local, radiografou a triste nota, e que o "Angel Losi", mais próximo do sinistro, estava rebocando o "Jahu" para a ilha, nada tendo acontecido aos tripulantes.


O jornal "Á Pátria", que então era editado no Rio de Janeiro, achou de dar a notícia do acidente como motivado pela imperícia dos tripulantes do "Jahu", fato que não ocorrera com o "Argos". O povo que sofria apreensivo com o possível fracasso do avião brasileiro, rompeu num protesto violento contra o jornal, quebrando tudo, morrendo gente na confusão.


No dia 5 de maio, Ribeiro de Barros ainda aguardava a nova hélice em Fernando de Noronha, quando a imprensa anunciou a largada de Dakar para Natal do "Paris-Amérique-Latine" de Saint-Roman.


Então, o suspense foi martirizante.


Recife, 5 - "De Dakar informa que o 'Paris-Amérique-Latine' passou alto, pelas 12 horas, sobre os rochedos de São Pedro e São Paulo" - Expectativa.


Recife, 6 - "Depois das 18 horas de ontem, nenhuma notícia positiva veio mais sobre o 'Paris-Amérique-Latine'. As estações de rádio de Olinda e Fernando de Noronha têm estado em comunicação com os navios que cruzam o Atlântico, não conseguindo nenhuma informação do aparelho. O cabo francês também não recebeu notícia alguma. Parece que Saint-Roman anda fora de rota comum de navegação". Consternação geral.


Depois, de todo o mundo, chegavam pedidos de informações sobre o paradeiro do "louco sublime", como fora apelidado o simpático marquês. Organizaram-se buscas e mais buscas por todo o litoral brasileiro. Navios de vários países vasculharam o Atlântico Sul, e nada. Os mais desencontrados boatos davam Saint-Roman nas praias do Recife, Fortaleza, Maranhão até ás margens do São Francisco; ou que os destroços tinham batido no litoral de Massachussets, Estados Unidos.


Tão somente em 29 de junho, os restos do avião de Saint-Roman eram identificados no litoral brasileiro, entre o Maranhão e Pará. Mais um herói para a galeria da França, cujo drama emocionou as nações, especialmente o Rio Grande do Norte, que o esperou sempre.


Enquanto isto, no dia 10 de maio, chegavam informações de Paris de que o drama de Saint-Roman não abatera o ânimo dos tripulantes do "Pássaro Azul". No dia anterior, tinham partido para o "raid" Paris-Nova-York. Idêntico destino estava reservado para eles: Desapareceram também nas águas frias do Atlântico Norte.


A 14 de maio, finalmente, Natal aguardava a chegada do "Jahu", que, recuperado, partira de Fernando de Noronha, às 9,10h.


Multidão. Toda a cidade estava às margens do Potengi. Navios, embarcações de todos os tipos, engalanados em arcos de bandeiras multicores. Pelas 13 horas, o ronco dos motores cresce à medida que a silhueta vermelha avulta no horizonte, vinda do mar.


Quando numa curva sobrevoou Natal, o delírio foi indescritível: Palmas, gritos.


Baixando após a ponte de Igapó, na altura da Pedra do Rosário, suavemente, uma, duas vezes, toca as águas do Potengi e depois desliza até ás proximidades do Cais Tavares de Lyra, onde atracou numa bóia.


(...)

A Missa Encantada ou Os veados brancos de Morro Branco


A Missa Encantada
ou
Os veados brancos do Morro Branco
Luís da Câmara Cascudo

João Monteiro, muitos anos empregado de meu pai, grande contador de estórias [...] narrara um encontro que teve com três veados, brancos e terríficos, descendo, silenciosamente a encosta do Morro Branco, sem nenhum temor do homem próximo que o pavor fez eriçar os cabelos e dar velocidade incrível às pernas.

Antonio Lopes, pescador, vindo de Ponta Negra, abandonou a estrada habitual pela praia e veio rumando para Capim Macio, ladeando as dunas.

Ao defrontar o Morro Branco, ouviu um canto muito bonito, como o das Santas Missões, distinguindo perfeitamente as vozes graves dos homens e agudas dos sopranos e contraltos femininos.

Era noite de lua e não muito tarde.

Antônio Lopes meteu-se pelo mato, mergulhando os pés na areia branca e fria.

O coral cada vez ficava mais perto, mas não avistava viv'alma. Andou mais de meia hora no rumo da cantaria. Ninguém. De repente, calou-se tudo e ficou apenas o vento morno sussurrando nas folhas imóveis.

Arrepiado como porco espinho, Antônio Lopes correu até a Solidão*, pondo a alma pela boca.

Nunca mais andou pelo Morro Branco depois do sol posto.

Manoel Andrade de Araújo conta estórias semelhantes, ouvida de algumas pessoas residentes nas Quintas.

Regressando de Ponta Negra perceberam que estava sendo celebrada uma missa nas proximidades do caminho. Ouviram perfeitamente as vozes do sacerdote e do acólito e o vozeiro baixo dos ouvintes.
Debalde procuraram localizar a cerimônia. Bateram os arredores, inutilmente. Silêncio, deserto, mistério.

Depois souberam que no Morro Branco há uma MISSA ENCANTADA, que muitos têm entendido e ninguém assistiu...

Os velhos moradores da Solidão, Senegal**, Lagoa Seca, contavam que a duna era povoada, em certas noites, de luzes que se moviam em todas as direções, cantos esparsos, vozes baixas e persistentes e, às vezes, sons musicais.

As lendas, visões, medos estão se dissipando (A República, "Acta Diurna",
04 de março de 1959, p. 4).

*Nome de uma das mais antigas propriedades do Tirol, pertencente a Pedro Velho. Onde hoje está a Escola Doméstica. Propriedade de tal importância, que a gente da cidade quando ía ao Tirol, dizia ir à Solidão. EA

**Propriedade de Joaquim Manuel, intendente que criou a Cidade Nova (Tirol e Petrópolis) em 1902. Onde hoje está o 16º BIM. EA

segunda-feira, 28 de março de 2011

A noite em Natal, 1924


A NOITE EM NATAL
Luís da Câmara Cascudo
Bric-à-Brac. A Imprensa, 11 de Maio de 1924
In A Cidade de Natal nas Crônicas Cascudianas dos anos 20, Raimundo Arrais

Despensa o commentario. Basta annunciar. Natal a noite. Estamos vendo uma cidade quieta como se aprendesse o movimento com as mumias pharaonicas. Sob a luz (quando ha) das lampadas amarellas arrastam, meia duzias de creaturas magras, uma "pose" melancolica de Byrons papa - gerimúns.

Depois, um "film" no Royal ou Rio Branco ou poker somnolento do Natal club.
Estive uns tempos inquerindo de como alguns amigos meus passavam as primeiras horas da noite. As respostas ficam todas catalogadas em trez classes. Indolencia. Ficam em casa e tentam ler.

Sahem e não havendo (desde que morreu Parrudo) nada de novo entre nós, deixam-se ficar madorrando numa praça silenciosa. Instincto de elegancia. Natal club. Ahi está como vive a noite um rapaz nesta terra de vates e de enchentes.

Não possuimos o instincto do "saloon', do ambiente, do ajuntamento. Em 1888 Paula Ney affirmava que os brasileiros só se reuniam em caso de briga. Deve ser verdade. Das quinze a vinte sociedades litterarias, dansantes, e operarias que existem por aqui duas abrem o que se convencionou chamar “os seus salões”.

O habito de palestra não é brasileiro. Nós descutimos. Somos discursophilos. Não sendo o nosso forte as leituras dos assumptos em controversia pomos a razão na força do berro.

Adhemar Vidal registrou a primeira observação, Gilberto Freyre a segunda. Chamou-a Stentormania. É, talvez, esta a maior affastante das nossas conversas. lndole calma e extranhamente irritavel, perdemos o "aplornb" logo as contestações iniciaes. A formula do brasileiro julgar é simples e peremptorio. Sabio ou nullo. Nunca dispomos de um elogio para quem discordamos.

O brasileiro só está de acordo quando ouve ou narra anedotas.
É logico não estamos sempre no véso de cantar historias jocosas. D'ahi o afastamento. Quem sahe de casa leve obrigatoriamente uma novidade. Se não, não, como diria o velho fidalgo portuguez.

Entre os natalenses as novidades raream. Substituiram-nas pelo “ouvi-dizer”, “estão decendo por ahi” e quejando.

Aquelles, por higiene moral imunes de tal vicios ficam em casa ou jogam o desplicente poker no Natal-club. E penso que só!...

sábado, 26 de março de 2011

PLANO PALUMBO - RIBEIRA

In CRÔNICAS DE ORIGEM – A cidade de Natal nas crônicas cascudianas dos anos 20 – Raimundo Arrais (Organização e Estudo Introdutório)



O NOVO PLANO DA CIDADE
Luís da Câmara Cascudo
(A Republica, 30 de outubro de 1929)

A cidade

Officialmente existe a Cidade do Natal ha tresentos e trinta annos. Relativamente parece com este titulo a oito ou nove annos. Ou melhor, imita cidade recem fundada se o enveizamento das arterieas não denunciasse a velhice.

O "chão elevado e firme" onde se plantou a cidade é a praça André de Albuquerque. A Ribeira permaneceu sempre um mixto de commercio e de casas raras que as grandes cercas distanciavam. O Potengy, caminho de venda para Pernambuco, abrigou a fila de casinhas seguindo curso. A conquista de leste é modernissima.

Nós podemos dizer que a cidade se dividiu em tres “blocos”: O da Ribeira, o da Cidade- Alta, o Ribeirinho. Petropolis, Tyrol e Alecrim não podem entrar no computo porque são recentes. Inda vive quem assistiu a construção da primeira residencia em Tyrol, das primeiras casas em Petropolis (nomes de sitios do governador Alberto Maranhão) quem caçou cotias na atual praça Pedro Velho e jacús na avenida Hermes.

Os tres "blocos" estendem-se numa irregularidade coherente. Havia a coherencia do factor economico que era a facil remessa dos productos pela via maritima. A cidade segregada entre morros e mar não tinha sinão vagas nocções do commercio do interior que se escoava rumo ao sul, nos comboios lentos partidos do Seridó ou vindos do Piauhy atravez de Ceará e Rio Grande do Norte; via Assú.

A cidade isolada guardava tenues liames interprovinciaes. O Potengy que déra nome à região, indicava o futuro da terra guiando para o mar os recursos realizados.

A cidade bem cedo teve o aspecto que hoje conserva em traço geral. O "bloco" ribeirinho estendeu-se da Praticagem ao Oitizeiro. O segundo, a Ribeira, ganhou profundidade indo esbarrar nas areaes das Roccas e para leste com Areial, dahi, em curva lenta, articulando-se numa continuidade de cochicholos, espraiava­se nos taboleiros cobertos de cajueiros bravos e mangabas.

O terceiro "bloco", tirante a “subida da ladeira”, a Rua da Cruz, era o maior bairro, o bairro residencial e de commercio meúdo.

Tivemos desta forma tres direções para uma cidade pequena. Em 1873 inda se dizia – “Cidade do Natal? Não ha-tal”! O amonteado do casario plantado a vontade dentro de alinhamentos invisiveis deu bem cedo o plano disparatado d'uma cidade em curvas, obliquas e ângulos agudos.

As rectas traçadas afoitamente são atitudes modernas ou exigencias imperiosas duma situação topographica que não concentiu que a indifferente attenção dos homens desvirtuasse o que naturalmente estava feito.

Dahi a Rua da Cruz, Junqueira Ayres, João Manoel, Conceição e Rua Nova. O nome dispensa provanças de modernidade relativa.

O que Natal apresenta atualmente é a ligação dos tres "blocos" iniciais com a teia de aranha das ruas irracionais. Depois da André de Albuquerque, descendo para o rio, a tortuosidade das ruas lembra um delírio de linhas convulsas. São as parallelas Paula Barros e Presidente Passos e a da Misericordia, riscos a doida, quebrados, tortos, alinhados filas de casas que parecem ter sido fixadas a murro. É a obliquidade da rua Ferreira Chaves. A incrivel sinuosidade da Fellipe Camarão, e desmantelo da do Commercio (que Sampaio Correa pedia como remedio um phosphoro e duas latas de Kerosene), o angulo agudo formado pela Fellipe Camarão com a Bôa Vista findando na montanha russa da Bicca-da-Telha, são os exemplos dos caminhos trêmulos indecisos das cidades doentes de collocações estheticas.

A cidade em conjunto poderia ser explicada em dois grandes arcos. Um antigo, irregular, atrabiliario, incorrigivel em todo, parte tradicional, parte iniciadora da cidade centenaria, arco cujas extremidades tocam as Roccas e o Baldo. A recta partida destes extremos marca a verdadeira cidade de Natal. O outro arco, parte moderna. Já racciocinado, um pouco monotona pela sisudez geometrica do enxadrezado, terá seus extremos tocando os dois do primeiro arco e correndo de leste a sul emquanto o primeiro parte do norte ao oeste.

As conquistas das primeiras praças, Augusto Severo e Leão XIII que eram pantanos, o alinhamento da Silva Jardim que era um alagado, trouxe o pensamento do xadrez porque este partia da idéa do primeiro retangulo saneado, plantado e conquistado ao rio. A recta surgiu como uma expressão de segurança. A Tavares de Lyra já demonstra isto. Os fulcros seriam as rectas que partindo do rio subissem para o morro. O desenho geometrico iniciou­se inda timido mas coherente e seguro. Tavares de Lyra - Silva Jardim - Sachet - Dr. Barata. A lucta daria a visão do rio, inimigo tradicional e alliado admiravel. O prolongamento da Sachet acceitou o plano inconsciente e primitivo do começo do xadrez. Manoel Dantas que vivia no Natal velho sonhou em 1909 a Ribeira "enxadrezada".

A cidade do Natal, entre rio e mares, ficou como uma massa esperando o aspecto. O titulo já possuia desde 1599.

O NOVO PLANO DA CIDADE
Luís da Câmara Cascudo
(A Republica, 7 de novembro de 1929)

A Ribeira no "Master Plan"

O "Master plan" que o sr. Omar O' Grady entregou ao technico Palumbo é a utilisação da massa citadina num plano racional de correcção. Correcção na parte existente. Os elementos constitutivos num trabalho de urbanismo serão forçosamente aquelles que se relacionem e aperfeiçoem o aspecto esthetico da cidade aproveitando seus recursos em paysagem e conjuncto, a facilidade de circulação e viação urbanas, os transportes e recreios. A existencia do "Zoning" e a inevitável arte civica, dão a demão derradeira.

O "master plan" em sua primeira prancha dá a impressão de inteligente resultado destes elementos. Os acessos à Cidade Alta passarão a quatro. A circulação será garantida pela ampliação das ruas e avenidas. O aspecto total apresentará uma harmonia da nossa Cidade tradicional com sua paysagem corrigida pela intelligencia.

Não estamos na phase eterna do “paper dreams”. Uma forte attitude de realisação pede naturalmente a collaboração das solidariedades collectivas. Urbanismo é justamente the science of linking up connection between things. A phrase é de Unwin.

Um "master plan" não é uma luva que se applique immediata e totalmente sobre a mão. É passivel de remodelações e de concessões. É um programa que póde e deve ser alterado em detalhes. No mais é como uma lei de bom gosto que se seguirá no curso da vida material da cidade.

Não se pretende estabelecer um dogma definitivo em assumpto urbanístico. Os americanos são assim. Riscam uma cidade e constroem-na. Como quem ergue um bolo. Assim resconstruiram São Francisco da California e formaram Okland. Assim o inglezes fizeram na moderna capital australiana de Camberra.

Parece que em Natal seguir-se-há o conselho do professor Steinhoff, da Universidade de Vienna. Para Steinhoff não é possível determinantes porque uma cidade é um organismo vivo que cresce sob a influencia múltipla de elementos variaveis, como o factor economico, a idéa pessoal dos dirigentes, a moda architeturial, etc.

Mas o que será a Ribeira quando o "master plan" estiver victorioso materialmente?

Começa o passeio pelas parallelas ao rio Potengy. As ruas que cahem perpendicularmente sobre o rio serão vistas em segundo lugar.

Rua do Commercio. Terá o mesmo comprimento. Será corrigida. Soffre duas deflexões, duas passagens obrigadas na Tavares de Lyra e Ferreira Chaves que hoje não vem até o rio. Corre a Commercio desde a Central até a Praticagem. Dahi em diante seguirá com outro nome, numa outra avenida que figurará na cidade novissima das Dunas. Terá, quando corrigida, uma praça-caes que servirá para as pequenas embarcações. Onde é a velha Alfândega.

Os quarteirões da Commercio serão cinco, em tamanho decrescente. Trez travessas communicarão com o rio. Actualmente a Commercio não tem sinão o inutil e esquecido caes de Palacio. Uma outra praçuela ajardinada cahirá sobre o eixo da Ferreira Chaves. Ficará a Commercio com seis accessos para o Potengy. E pequenos parques à beira rio.

Rua Dr. Barata seguirá corrigida. Conserva-se-hão as travessas Venezuela, Argentina e Quintino Bocayuva que será alargada.

Rua Frei Miguelinho. Mesmo tamanho e direcção. As ruas transversaes Nysia Floresta, Ferreira Chaves e Triumpho que vêm agora atravessando a Sachet e terminando na Frei Miguelinho, terão uma valorização inesperada. As duas primeiras irão até o rio; coincidindo na articulação das travessas da rua do Commercio. O final da Frei Miguelinho é a Silva Jardim. Dahi em diante é o domínio dum plano ideal, dum plano de extensão, desdobrando os horizontes da cidade do Natal.

Senador Bonifacio, a rua das Virgens, alinha-se, acerta-se e ponto final.
Avenida Sachet será uma característica de belleza simples e de amplidão magnífica. Virá desde a Junqueira Ayres, cortará o parque Augusto Severo fazendo triângulos rectos e isoseles, atravessa a Tavares de Lyra, Nysia Floresta, Ferreira Chaves, 15 de Novembro (porque se mudou o nome de Triumpho?) e irá em recta até a Silva Jardim. Como a Frei Miguelinho e Commercio a Sachet fixar-se-há numa immensa avenida contornante que abraçará Natal.

Almino Affonso. Rua irregular. Rua dançando charleston. Entrará uma linha rasoavel de decencia e de ordem. Virá em recta com a largura de 18 metros desde o contorno da Silva Jardim (a Almino hoje é uma rua de novello em mão de macaco) até intestar-se com o inicio da Avenida Rio Branco que terá passado os terrenos da Villa Barreto. Um becco que é a curva do Triumpho, a pracinha onde está a Prophylaxia, desapparecerão. A Almino ficará, ao avistar a Rio Branco que agora vem morrer deante do Bom Jesus da Ribeira depois das soluções de continuidade da Villa Barreto, etc., etc., numa praça nova que substituirá a actual Leão XIII. A Almino ficará nesta praça que deixará o Bom Jesus isolado e com um outro aspecto de imponencia e expressão architectural.

O novo quarteirão que substituirá a praça Leão XIII terá como limites as ruas Nysia Floresta, Sachet, Tavares de Lyra e a futura praça. Nesta, no lado sul virá a Rio Branco que passando as ruas Sul e Norte (lado direito da Domestica e esquerdo do Carlos Gomes) attingirá ahi o seu terminus.

A rua General Glicerio (porque este nome?) ficará rectificada.

E as ruas perpendiculares do rio? A rua Sul irá ligar-se na curva da Felippe Camarão. Ella actualmente existe até a cota 5 mas é impraticavel, tem 16 metros. O prolongamento da praça Augusto Severo chamado Travessa Aureliano terá 16 metros. Estender-se-ha até Deodoro, passando a rua Norte. Agora ella possue este mesmo traçado, é de quase impossível subida. Este prolongamento será uma via de ligação desde a Deodoro até o Potengy. Justamente neste local estará o caes que substituirá o da Praticagem. De mim mesmo encontro nestes 16 metros uma largura que não satisfará futuramente a necessidade do trafego cada vez maior. Dentro de dez annos a Prefeitura terá que ampliar este algarismo. Mesmo agora a travessa já é de circulação intensa e nos dias de trem coincidindo com as vindas de algodão e embarque para a Great Western sua estreiteza é axphyxiante. Os 16 metros serão paliativos. Melhor seria remediar de vez.

A Tavares de Lyra continuará com os seus 22 metros até a cota 5, passando à direita da praça que isolará a Igreja Bom Jesus e terminará num local reservado para monumento. As ruas Nysia Floresta e Ferreira Chaves subirão até a avenida Deodoro.

A Silva Jardim vai até a cota 5 e se confundirá com o prolongamento da Deodoro. Uma "reserva" dará o futuro mercado do bairro­baixo. A Silva Jardim é rua-grande na cidade novissima que fará esfarelar-se os arruados das Roccas, Areial, Limpa, Canto do Mangue, Chamaré, etc.

Por ora só se passeiou na Ribeira systematizada. A impressão é de audacia muito respeitoza. Tudo ou quase tudo se poupou. Os traçados obedeceram a linha tradicional parallelos e verticaes ao rio. Apenas o braço do homem alinhou racionadamente os valores confuzos que herdamos em nome da cidade.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Velha de Guerra


RIBEIRA VELHA DE GUERRA
Deífilo Gurgel
A Gutenberg Costa

Na Campina da Ribeira,
...o poeta Itajubá
- sentimental, mas, viril,
empina nos céus de agosto
(o suor escorre do rosto),
um tremendo papagaio,
o maior que já se viu.

Mestre Cascudo passeia
na antiga Rua das Virgens.
Na casa número tal
nasceu um super-herói.
(O super-herói é ele,
vencedor de tanta guerra,
tanta luta cultural).

Hidroplanos alçam vôo
na barra do Potengi.
São aves da Latecoére,
enfrentando as intempéries,
pelas mãos de Exupéry.

Em frente ao Cova da Onça
Perrepistas, Liberais
trocam mais que insultos, tiros.
Morre o povo, corre o povo,
que todos somos mortais.

Tabuleiro da Baiana.
Fumaça serve cartolas
- banana, queijo e canela
p­ara a fome dos bacanas.

Ali perto o Potengi
delira em festas, é tarde
de regatas, o sol arde
e arde o povo, em frenesi.

Raimundo Cego apregoa
a sorte da Loteria:
"Leve a do burro, seu Zé!"
grita Raimundo, que é cego,
mas, no escuro da cegueira,
é o grande rei da ironia.

Ribeira Velha de guerra,
às tuas noites de paz
retomam velhas figuras
que os anos não trazem mais.

Dirigido por Cancão,
meia-noite pára um carro,
em frente à Pernambucana
do livreiro Luís Romão.
Vêm nele: Roberto Freire,
Luís de Barros e o tão
falado Luís Tavares,
pela força de Sansão;

Vêm Cascudo e Zé Areia,
Zé Alexandre Garcia,
Newton Navarro e Albimar,
com um "vade-mecum" na mão
e entre risos e abraços
e muitas louras geladas,
vai começar a função.

quinta-feira, 24 de março de 2011

PRECE AO PÔR-DO-SOL NO POTENGI


PRECE AO PÔR-DO-SOL NO POTENGI
Celso da Silveira

Sol
relógio astral tange o pêndulo
- sua bóia fluvial -
ritmo das maretas...

Assim, lentas, as águas
pára-raios / ponteiros
do mostrador coral
na lâmina do rio
vão reproduzindo
portugueses na foz,
franceses no Refoles,
holandeses nos Guarapes, asas
da Condor na Montagem,
naus inglesas no flutuante
do Passo da Pátria,
hidro-aviões Latecoére na Limpa,
pesqueiros no cais
do Canto do Mangue,
ioles a remo eriçando o estuário,
mel de cana no Ferreiro Torto,
imagem da Apresentação
na pedra do Rosário
e sob a vigilância e proteção
do cruzeiro da Igreja do Rosário dos Pretos
no alto da Cidade
o povo amado de Deus reza
pela salvação da terra, amém ...

HISTÓRIA DA FORTALEZA DOS REIS MAGOS

photo: Ianê Heusi

O Marco de Touros
Abril de 1500 - Navegador Pedro Álvares Cabral chega a Porto Seguro, 8ahia.
Agosto de 1501 - Navegador Gaspar de Lemos chanta o primeiro marco de posse portuguesa em terras do que viria a ser o Rio Grande do Norte. Era viagem de reconhecimento.
O Marco, feito em pedra lioz, apresenta, no primeiro terço, a Cruz da Ordem de Cristo em relevo e, abaixo, as armas do Rei de Portugal: cinco escudetes em cruz, com cinco besantes em santor, sem a bordadura dos castelos. Conhecido popularmente como Marco de Touros, é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.
arte@metro



Antecedentes
Portugal e Espanha buscavam um caminho para as índias nas últimas décadas do século XV.
Em 1492, Colombo descobre a América, acontecimento que leva Portugal e Espanha ao Tratado de Tordesilhas. A partir de uma linha imaginária meridional, a cem léguas a oeste dos Açores e de Cabo Verde, o mundo seria dividido: a leste, pertenceria a Portugal; a oeste, à Espanha.
O rei de Portugal, D. João III, em 1534, resolve dividir a terra brasileira em faixas, que partiam do litoral até a linha imaginária do Tratado de Tordesilhas.
Eram as chamadas Capitanias Hereditárias.
Ao norte da Baia da Traição, João de Barros, Fernão Álvares de Andrade e Aires da Cunha associaram-se para colonizar a maior delas, que incluía o atual território norte-riograndense. Todas as tentativas fracassaram, por naufrágios e por ataques de franceses e indígenas potiguaras.
 arte@metro



Os Tupis
A faixa litorânea era ocupada por índios agricultores, do grupo linguístico Tupi. Chegaram à região entre os anos 500 e 1000 de nossa era.
Eram sedentários, bem organizados socialmente, bons canoeiros e antropófagos. Orgulhosos, bons guerreiros, hábeis no arco e na flecha, bem como no uso da borduna, um tacape de madeira dura.
Seu principal plantio era o da mandioca. Produziam farinha. Sua cerâmica tinha influências da cultura marajoara, da Amazônia.
Dominavam toda a costa litorânea do Estado e grande parte do litoral cearense. Expulsaram os índios Tapuia para o interior.
Possuíam grandes aldeias em Igapó, Macaíba, às margens da Lagoa de Guaraíras, região de Georgino Avelino, rio Curimataú.
Guerreiros versáteis, formaram as forças auxiliares que atuaram na conquista e na expansão européia de nossa região.
Os Tapuias
As tribos tapuias eram temidas por todos os indígenas. Diferentes em suas maneiras de ser. Corredores incansáveis e velozes, somente os animais podiam competir com eles. Astutos e cheios de manhas, preparavam emboscadas e armadilhas para os outros. O vigor físico e a valentia desses guerreiros sempre foram características admiradas e respeitadas. Eram cautelosos quando iam à guerra. Ao avistarem seus inimigos, arremetiam contra eles numa rapidez sem igual. O barulho que faziam era ouvido ao longe, por entre as ramagens da caatinga ou da mata litorânea.
Exímios flecheiros, suas flechas certeiras eram letais. Excelentes rastreadores, seguiam os inimigos por lugares difíceis e ásperos. Conhecedores dos terrenos que palmilhavam, reconheciam todos os seus acidentes, o que Ihes permitia aparecer de surpresa por sobre as tropas européias.
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A construção da Fortaleza
Os franceses tentam colonizar o Rio de Janeiro e, derrotados, investem no pontal nordestino, onde achegam-se ao nativo e vivem como igual, para levar pau-brasil a partir das calmarias dos ancoradouros como os do rio Potengi e praias de Búzios, Tabatinga, Pititinga.
Os vizinhos da Paraíba e Olinda sentiam-se incomodados. Os franceses, junto aos potiguaras, invadiam engenhos, fazendas e povoados, saqueando e matando.
Felipe II, rei de Portugal e Espanha, atende aos apelos portugueses para defender as terras asseguradas pelo Tratado de Tordesilhas.
Na desembocadura do Potengi, o rio Grande, haveria de ter uma Fortaleza e uma cidade seria plantada, para ajudar à defesa e ao domínio das terras ao Norte.
Em 25 de dezembro de 1597, chega à barra do Potengi uma esquadra comandada pelo Capitão-mor de Pernambuco, Manuel Mascarenhas Homem. Doze embarcações estão sob seu comando.
Por terra, vêm três companhias de infantes e uma de cavalarianos, sob ordens do capitão-mor da Paraíba, Feliciano Coelho.
Veio também o jesuíta Gaspar de Samperes, mestre em traças de engenharia, a quem coube desenhar a planta da paliçada que daria origem à Fortaleza.
Em seis de janeiro, deram inicio a construção do forte provisório, inaugurado meses depois, no dia de São João Batista.
O comando foi entregue a Jerônimo de Albuquerque e, mais tarde, a João Rodrigues Colaço.
A Fortaleza somente foi tornada segura e com as dimensões atuais, sob o trabalho de pedra e cal deixado pelo engenheiro-mor do Brasil, Francisco Frias de Mesquita, entre 1614 e 1628.
No caminho, a fundação de Natal, a 25 de dezembro de 1599, depois de firmado o Tratado Perpétuo de Paz e Aliança entre as nações potiguara e portuguesa, meses antes.
Uma capelinha erguida onde hoje está a matriz de Nossa Senhora da Apresentação, Praça André de Albuquerque, Cidade Alta, anunciou a intenção de cidade firmada, sonhada e decidida por Felipe II.

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O Domínio Holandês
Com a tomada de Olinda pelos holandeses, em 1630, a Fortaleza dos Reis Magos passa então a ser alvo de investidas dos batavos, que a 8 de dezembro de 1633, trazem 16 navios e dois mil homens. Desembarcam 800 soldados em Ponta Negra, para ajudar na tomada da Fortaleza, por terra e por mar.
Durante quatro dias, sob o comando do Capitão-mor Pero Mendes de Gouveia, gravemente ferido, a Fortaleza resistiu. Sem o seu consentimento, passou a domínio holandês.
Até 1654, chamou-se Castelo Keulen e mereceu visita, reforma e registro do Conde João Maurício de Nassau, representante da Companhia Holandesa das índias Ocidentais, acompanhado dos artistas Franz Post e Albert Eckhout.
Uma brava reação nativa e portuguesa estava sendo preparada contra a ocupação holandesa do Nordeste brasileiro. Felipe Camarão, sua mulher Clara e muitos guerreiros potiguaras estão nos primeiros combates contra a presença holandesa. No embate final, em Pernambuco, na lendária Batalha dos Guararapes, Camarão se destaca e é feito governador de todos os índios do Brasil.
Sem que um tiro tenha sido disparado, os holandeses, vencidos em Guararapes, abandonam a Fortaleza dos Reis Magos.

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Patrimônio Histórico Cultural
Depois, são anos dorminhocos, lentos, pequena população na Limpa, praia do Potengi, próxima ao Forte; mais gente na duna alta, onde sobrevivia a capelinha a demarcar a cidade que insistia em não ser cidade: uma rua principal, a Rua Grande, e outra que levava o nome de Rua do Caminho de Beber Água, hoje as Santo Antônio e da Conceição, caminho do rio Tissuru, ao sul.
No Forte, esteve preso Jaguarari, destacado chefe indígena. Também Lourival Açucena, primeiro poeta norte-rio-grandense.
Em 1817, o Nordeste conspirava contra a Coroa. Em Natal, André de Albuquerque Maranhão lidera um levante republicano. Governa, mas forças legalistas tomam o palácio, ferem-no mortalmente e o levam para as masmorras do Forte, onde falece sem atendimento médico e é depois arrastado até a igreja de Nossa Senhora da Apresentação, onde é sepultado.
A Fortaleza dos Reis Magos é o símbolo guardião do povo potiguar. Dela, partiu Jerônimo de Albuquerque para a conquista do Maranhão, Martins Soares Moreno das terras do Ceará, e Francisco Castelo Branco para fundar a cidade de Belém, no ímpeto de alcançar a Amazônia, sempre acompanhados de tropas indígenas.
Além de resistência, ela serviu de morada, suporte para farol de navegação, cadeia, bateria de artilharia de costa na Primeira Guerra Mundial e ações culturais. 
O monumento foi tombado pelo Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em 15 de janeiro de 1949 e, em 1965, foi incorporado ao patrimônio do Governo do Estado, através da Fundação José Augusto, que promoveu, nesse mesmo ano, sua primeira grande restauração.
A Fortaleza dos Reis Magos é hoje o primeiro destino turístico potiguar.


 arte@metro
 

Textos: Exposição Permanente na Fortaleza dos Reis Magos
Eduardo Alexandre
Walner Spencer (Tupis e Tapuias)

Ilustrações: Arte@Metro

The History of Fortaleza dos Reis Magos

photo: Ianê Heusi
(The Touros cornerstone)

April, 1600 - Navigator Pedro Álvares Cabral sets anchor in Porto Seguro, Bahia.
August, 1501- Navigator Gaspar de Lemos, during a reconnaissance trip, lays the first Cornerstone to mark the Portuguese possession of lands that would become the future state of Rio Grande do Norte.

The landmark, carved out of a block of Pedra Lioz (Lioz Stone), depicts in tierced pallwise, the Cross of the Order of Christ, in relief, completed by the Coat of Arms of the King of Portugal underneath: five surtouts in cross shape, with five bezants over gold, without castle girding. The Landmark is popularly known as "Marco de Touros", and was classed by the Patrimonio Historico e Artistico National (National Historic and Artistic Patrimony).
arte@metro


Historic Background

In the last decades of the XV Century, Portugal and Spain were searching for a route to what was then called "As Indias" (Eastem Indies).

In 1492, Columbus discovers America, an event that leads Portugal and Spain to sign what is known as "Tratado de Tordesilhas" (The Tordesilhas Treaty). From an imaginary line, set one hundred leagues west from the Azores and Cape Verde, the world would be parted in two: ali points East belonged to Portugal; ali West, to Spain.

The sovereign of Portugal, D. Joao III, decided then to slice the Brazilian land in layers that starting from the shores would reach that imaginary line created by the Tordesilhas Treaty.

That is what was known as the "Capitanias Hereditarias" (Something that could be understood as "Hereditary Outposts").

To the North of the Baia da Traição (Treason Bay), João de Barros, Fernão Álvares de Andrade e Aires da Cunha joined forces to colonize the larger of the "Capitanias", which included what is now the State of Rio Grande do Norte. Ali attempts to make land and settle were doomed to failure due to shipwrecks, attacks from the French corsairs and the native indigenous population, the "potiguaras".
 arte@metro


The Tupis

The shores of the new Portuguese possession were occupied by an agriculture prone indigenous population, sprung off the Tupi linguistic trunk. It is believed that they established in the area circa 500 to 1000 AO.
Sedentary, socially well organized, skillful rowers, anthropophagi, proud and fearless warriors, the Indians were well trained in archery arts, as well as in the use of the "Borduna", a heavy wooden bashing mace, also called "Tacape".

The Tupis dominated the entire coast of the state and part of the coast of what today is Ceará state.
They established villages in Igapó, Macaiba, on the rims of the Lagoa de Guarairas (Guaraíras Lagoon), in the area of Georgino Avelino, and the Curimataú river.

Ingenious and versatile warriors, they were part of the ancillary forces that played an active role in the process of the European conquest and expansion in the area.

The Tapuias

The Tapuia nation was one of the most feared by all other tribes. They were different; their demeanor was uniquely different from the others. Tireless and speedy runners, only wild animals, they say, could compete with them. Clever and astute, were known for their ambushes and traps. Their physical fitness added to a daring nature, and earned respect and fear from their enemies. In war were cautions, cunning, charging with intensity at first sight of the enemy, and the noise they made while charging was deafeningly scary, according to testimonials, especially when heard amid the foliage of the dense Atlantic Forest.
First-class archers, their arrows were always lethal. Excellent trackers, were able to follow, scout and pursue their enemies whatever terrain they chose to thread, no matter how hard and rough. They knew the hills and ranges, accidents and topography, by heart, what allowed them to make blitz attacks against the European forces, with devastating consequences.
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A Fortress is built

The French tried to colonize Rio de Janeiro. Defeated, they invested in the eastern point of Brazil, (the Nordeste) wherein they mingle with natives and try to live in their milieu. The main objective behind this good-neighbor policy was to use the calm waters of estuaries like the Potengy river, or low beaches like Buzios, Tabatinga and Pititinga to extract the valuable Pau Brazil, and shuttle it away to Europe.

The relationship between Frenchmen and locals started to bother bordering Paraíba and Olinda. The French, associated with the Potiguaras, used to invade, loot and slaughter in farms and villages.

King Felipe II, of Portugal and Spain , decided to heed to the Portuguese appeal for assistance, and engages in defending the lands granted to Portugal by the Tordesilhas Treaty.

It is decided that a Fortress should be built in the estuary of the Potengy River, the Rio Grande (the Big River), and a city should be founded to consolidate the defense and the control of the Eastern points.
In December 25, 1597 a fleet of twelve ships, commanded by the Capitão-mor (a title similar to that of Commander in Chief) of Pernambuco, one Manuel Mascarenhas Homem, sets anchor at the Potengy bay.
By land, three companies (one infantry and two cavalry groups) march under the command of Paraiba's Capitão-mor, one Feliciano Coelho.

With this group came along the Jesuit Gaspar de Samperes, a master builder and engineer, to whom fell the task of designing the first palisades that originated the Fortress we see today.

On January 6 the building of a provisional barracks started, and was finished months later, on Saint John the Baptist's day.
The Command of the fort was given to Jeronimo de Albuquerque, and later, to João Rodrigues Colaço.
The Fortress only came to the current design and shape, of stone and plaster, with the work of the Engenheiro-mor do Brasil ( Brasi/'s Chief Engineer) Francisco Frias de Mesquita, amid 1614 and 1628.
Between those two dates one will note the foundation of the city of Natal, on December 25, 1599 - after the signature of an agreement between the natives and the Portuguese, also known as the Perpetual Peace and Alliance Treaty.

To mark the foundation a chapel was erected at the site where nowadays we see the Church of Nossa Senhora da Apresentação (The Church of Our Lady of Presentation), which signals the concretization of Filipe's dream city.
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The Dutch Domination

After the fall of the city of Olinda in 1630 to the Dutch forces, the Fortaleza dos Reis Magos became a target for Dutch incursions, which on December 8, 1633 dispatched 16 ships and two thousand men to invade the region. Eight hundred Dutch soldiers disembark in Ponta Negra to help conquest the fort by sea and land.
For four long days, under the brave leadership of Capitão-mor Pero Mendes de Gouveia, seriously wounded, the locals resisted. But finally the Fort fell under Dutch hands.

In 1654 it was re-named Castelo Keulen (Keulen Castle) was reformed, remodeled and visited by The Count João Mauricio de Nassau, representative of the Company of the Eastern Indies, who brought along the artists Franz Post and Albert Eckhout.

However, a brave and daring Portuguese reaction was being articulated against the Dutch occupation in the interior of the state. Felipe Camarão, his wife Clara and several Potiguara warriors were among the fist line of defense established against the Dutch. During the final conflict, also known as the Batalha dos Guararapes (The Guararapes Battle), Camarão was considered a heroe, and put forward as the general governor of all Brazilian natives.

Without firing one single shot the Dutch had lost the batlle and its prize. They swiftly abandoned the Fortress.
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Historical and Cultural Patrimony

After all this, what we see is: slumbering, slow years; a small population at the Limpa, the Potengy beach near the fort. More people on higher ground, the dunes, where there still was, resilient, the small chapel that signaled the existence of a city that, so it seemed, insisted in not becoming a city: one main street, the Rua Grande (Broad Street), and another one, to the South, named Rua do Caminho de Beber (Quenching Way Road). Both streets have new names nowadays: Rua Santo Antonio, and Rua da Conceição (on the way to the Tissuru river).

The fortress was used as a prison. In its dungeons Jaguarari, a prestigious native leader, was arrested. And also a poet, Lourival Açucena, first poet of Rio Grande do Norte.

In 1817 the Northeast of Brazil was conspiring against the Portuguese Crown. In Natal, Andre de Albuquerque Maranhão headed a Republican upheaval. He was the governor, but opposing forces invaded the palace, mortally wound him, drag him to the dungeons where he dies due to lack of medical attention. His body was hurried to the Church of Nossa Senhora da Apresentação and hastily buried.

The Fortaleza dos Reis Magos is the guardian symbol of the Potiguar people. From its gates, Jeronimo de Albuquerque left to conquer Maranhão; Martins Soares Moreno to conquer Ceará and Francisco Castelo Branco, to found the city of Belém, aiming to conquer the Amazon - always with the strong support of the native troops.

More than a resistance rampart, the building served as abode, navigation beacon, jail, artillery bunker during World War I, and now it is a major stage for Cultural activities.
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Textos:
Eduardo Alexandre
Walner Spencer (Tupis e Tapuias)
Versão para o Inglês: Marcílio Farias

terça-feira, 22 de março de 2011

Redinha


REDINHA
Eduardo Alexandre

VIVER
A ALEGRIA DO MAR
NO MAR DA REDINHA
OS OLHOS NA FORTALEZA
A BRISA
A PESCA COSTEIRA
PAQUETES QUE VÃO E QUE VÊM
JANGADAS
DOS VALENTES HOMENS DO MAR
O MALHO
O ARRASTÃO
A CACHAÇA SUADA
O MERCADO
A TAPIOCA
O DENTÃO
O DENDÊ

O CAJU TROPICAL
A VONTADE DE AMAR
A MORENA QUEIMADA
DO SOL DA REDINHA

REDINHA QUE VAI E QUE VEM
NO SUAVE BALANÇO
EM SONO DE REI

AH! A REDINHA
REDINHA DENGOSA
DE VERSO E DE PROSA
REDINHA AMOROSA
DO MEU CORAÇÃO !

A CAPELINHA
O MANGUE
PRINCESA DO RIO GRANDE
CAÇULA DO POTENGI !

Eider Reis, o tetéu-mor



EIDER REIS, O TETÉU-MOR
José Alexandre Garcia
In Acontecências e Tipos da Confeitaria Delícia

Escritório da Travessa Equador, dez da manhã, o telefone tilinta:
- É pra você - diz o velho Zé Alexandre. E me passa o fone.
Ao atender, reconheci a voz de Eider Reis. Não com sua costumeira jovialidade, mas um Eider sisudo, grave, circunspecto, protocolar.

O INFAUSTO
- Soube do infausto? - emprestava conotações dramáticas ao termo infausto - Olívio caiu da prateleira! Ou melhor, subiu em escada para retirar uma daquelas conservas deterioradas que ele coleciona e - tchum! foi ao chão.
Ligeira pausa.
- Você sabe que é uma temeridade o português subir em escadas, com aquela perna dura!
E não deu chance a comentários.

VISITA AO DOENTE
- Precisamos fazer-lhe uma visita. Amigos são para estas coisas. Vamos oferecer nossos préstimos. Daqui a dez minutos estou na Delícia. Levando Múcio Teixeira. Telefone aí pra Mozart Silva, para nos encontrarmos lá.
Eu estava sobrecarregado de serviço. E aquela "queda da prateleira" me soava meio falso. Mas Eider era boa praça, um amigão, o Tetéu-mor.
O certo é que quando cheguei à Confeitaria, a primeira figura que encontrei risonho, forte e são do lombo, foi o português. E abancado na última mesa, com uma Teutônia casco verde aberta, Eider. Com ares de quem pregou boa peça.
- A manhã estava tão bonita! - justificou - E é um crime desperdiçá-la metido num escritório, em vis atividades mercenárias.
E ante a recusa, algo indignada, minha e de Mozart, de aderir à loura suada, foi persuasivo.
- É só uma. Para tirar a "pissica" de ontem. E abrir o apetite para o almoço.
Eider Reis era América numa família tradicional e visceral gozação, vivendo e gostando de viver.

O GANGO TETÉU
Creio que foi ele quem descobriu Olívio para os bate-papos, os aperitivos, os encontros de fim de expediente. A Delícia até então era mais confeitaria que bar. E este, restrito a uma meia dúzia de figurões. Amaro Mesquita, Oswaldo Medeiros, os irmãos Lamas - Antônio, Chico e Jacob - Roberto Freire, Luis de Barros, Jenkins da Força e Luz, o coronel Aluísio Moura, Chefe de Polícia. Limarujo ainda era pequeno comerciante.
O gordinho quebrantou a sisudez do ambiente com a sua verve. Convocou os amigos, os colegas de Banco, todo aquele que fosse irreverente e irmão da opa, como ele.
Como se aproximava o carnaval, inventou um bloco para brincar o tríduo momesco. Nos moldes dos "Pinguins do Amor" e "Jardim da Infância", assaltando residências, com orquestra própria e uma sede pra ninguém botar defeito.
A princípio, ensaiava-se batucando latas de ameixas vazias, os garfos, as facas, as colheres servindo de paletas, fazendo ritmo em cima das mesas.

DOZINHO
A incorporação de Dozinho, nomeado Compositor do Gango, foi providencial.
Aí, vieram os instrumentos de percussão, os tamborins, as cuícas, os pandeiros, os bombos, os recos-recos, a definição de repertório, as músicas ensaiadas pra valer e a constatação de que aquilo era a "sério" e não mais brincadeira.
Nascia, ali, o Gango Tetéu, de tantos carnavais e que chegou a ter sede na Circular.

PROPRIEDADE DO TETÉU S. A.
E a essas tantas, que dizia e pensava Olívio? O portuga divertia-se com as mumunhas, ria das anedotas, tomava partido nas discussões e contabilizava os lucros. Mesmo com a maioria na base do pendura, do depois eu pago, dos acertos de contas no fim do mês.
E tanta graça achava Olívio, que Eider foi tomando fôlego.
"Desapropriou" a Delícia, transformando-a em sede oficial do Gango. Na geladeira e num cofre do tempo da onça, que Olívio herdara de Sinval Duarte, fez afixar um cartaz: Propriedade do Gango Tetéu S. A.

O GÊNIO DE EIDER
Eider era funcionário do Banco do Brasil e filho de "seu" Enéas Reis, agente da Sul América e gerente do Cinema Rex.
E as comadres diziam que Eider "puxara" todinho a "seu" Enéas. Era baixinho, atarracado, meio pra gordo, o mesmo cacoete de pescoço, o mesmo fungado, a mesma maneira jovial de encarar as coisas, numa família de introspectivos, sisudões, como o clã dos Reis.
Os gênios de Edvaldo e Edvar eram diametralmente opostos ao de Eider. Somente Etiene se aproxima de Eider.

"SEU" ENÉAS
"Seu" Enéas era uma grande figura humana e homem de visão extraordinária. Foi ele um dos primeiros a antever que o Tirol seria o bairro do futuro e para
lá se mandou em meados de 1920, quando a Av. Hermes era um fim de mundo, longe de tudo. Basta dizer que até 1940 a cidade terminava na praça Pio X e dali por diante era tudo mato, quando muito, chácaras e sítios.
Foi ele quem doou o terreno para o ABC fazer seu campo de futebol. Foi ele quem incentivou a Liga de Desportos Terrestres, depois ARA, depois FND, a solicitar doação do que hoje é o Juvenal Lamartine. Foi ele quem mais botou na cabeça de Xixico para que o salineiro investisse no negócio de cinema.
Xixico terminou por capitular, mas impondo condição: que Enéas tomasse conta de tudo, pois ele, Xixico, apenas apareceria para embolsar a gaita.
Aliás, nas últimas semanas, quando do estertorar do "Rex" como casa de espetáculo, veio à tona as estroinices de Xixico, as farras de Xixico, a ojeriza que Xixico tinha ao trabalho.
Sem citar-se Enéas, o pé de boi, o gerente, o homem que criou a "Sessão das Moças". De saudosas recordacões. Do homem inteligente, que fazia questão de trazer bons filmes para exibir no seu telão. Que trouxe os maiores astros do rádio de então.

ABOLIÇÃO AO PALETÓ
Enéas Reis há de entrar um dia na história dos costumes da cidade por ter abolido paletó e gravata como trajes obrigatórios para se freqüentar casa de diversão no burgo, permitindo-se o sileque, até então desconhecido ou inaceitável.
E a adoção se fez de modo imprevisto, em plena Grande Guerra, idos de 42/43. Quando Natal era Trampolim da Vitória e pela Base de Parnamirim aterrissavam, abasteciam-se e decolavam rumo à África centenas de aeronaves, transportando tropas, levando munições e víveres para abastecer os exércitos aliados.
Os my friends, então, pululavam na cidade. Encontradiços nos bares da Dr. Barata. No U.S.O., nas pensões alegres, nos bailes do Aero Clube.
Pois, numa tarde, quando faltavam poucos minutos para o início da vesperal, um transporte militar estaciona na calçada do "Rex" e dele desembarcam uns sessenta a setenta gringos, todos esportivamente trajados com o tal de sileque, para assistir Jeanette Macdonald e Nelson Eddy na opereta "Oh, Marieta!", passando pela 13ª vez em Natal, sempre garantindo casas cheias. E a confusão se formou. Entra, não entra. É proibido, é um atentado à moral pública, pouca vergonha permitir-se galegos semi-nus assistirem cinema ao lado de nossas esposas e filhas - verberavam os puritanos.

A DECISÃO DE ENÉAS
Chamaram Enéas para dirimir a questão. Enéas ouviu um lado e outro. E enxergou o futuro. Entendeu, antes que ninguém, que a guerra traria profundas modificações na vida e nos costumes.
E dono e senhor da situação, decretou o fim do traje formal.
- A partir de hoje, está abolida a obrigatoriedade do uso de paletó e gravata para se assistir cinema em Natal.

O AMERICANO
Eider Réis era América numa família tradicional e visceralmente abecedista fanática. Travando discussões tremendas às horas de refeições. De um lado, Eider, sozinho, com seu espírito e a malemolência de inteligentes argumentos. Do outro, o resto da família. Com seu daltonismo, sempre vendo tudo preto e branco.
E Eider levava a melhor, na maioria das vezes. Com o beneplácito, evidente, do papai Enéas.
A propósito destas refeições, encontros obrigatórios de toda a família, mesa lauta e enorme como era antigamente, reunindo vinte e cinco pessoas, pais, filhos, irmãos, avós, parentes, aderentes, visitantes do interior e amigos ocasionais, contam uma muito boa de Eider.

A CUECA
Passava das 11 horas - dona Carmelita era rigorosa no horário - quando Eider surgiu, espavorido, vindo da rua, aos berros:
- Perdi! Perdi! Perdi!
- O quê, meu filho? A carteira? - perguntou dona CarrneIita. Mãe é sempre previdente. Pensa logo no imediatismo das coisas e mentalmente já reservara uma pelega de quinhentos, para colocar no bolso do filho.
E Eider, andando de um lado para outro:
- Perdi!" Perdi! Perdi!
- O automóvel? - inquiriu seu Enéas, pensando na apólice de seguro e em como resgatá-Ia em tempo recorde.
E Eider, cada vez mais dramático:
- Perdi! Perdi! Perdi!
- Afinal, o quê, meu filho?
- Perdi minha cueca. Novinha em folha. Não sei onde deixei ...
Naqueles tempos de tanto distanciamento entre pais e filhos, era atrevimento e muito, descaramento dos maiores. Quando se pensou que Enéas ia dar uma descascadela em regra, sabão dos mais severos, Enéas abriu-se numa risada gostosa.
Aí, todo mundo riu.

O ANGLIA
Eider possuia um Anglia dos mais adubados. Em 50, era um alto luxo, raridade somente permissível a quem era bancário, gastador, mas não mão aberta e que tinha logística toda de graça, casa, comida e roupa lavada. Os tempos áureos de JK e da indústria automobilística que ele criaria, estavam longe.
Para com o borrachinoso, como o chamava, seu dono tinha tratamento díspar.
Pela manhã, para se pegar uma carona, era um chove-não-molha tremendo. Tinha-se que ser submetido à inspeção quase militar: os sapatos estavam limpos? E as mãos? Cuidado com a porta. Não fume. Silêncio, para não perturbar o motorista.
À noite, depois de umas e outras, valia tudo. Comprimiam-se no seu interior quatro ou cinco amigos e mais copos, garrafas, pratos de tira-gosto, cordas de caranguejo, co-pilotos de sapatos enlameados, manoplas sujas de graxa, fumadores de charuto, o diabo.

TRAVESSIA DOS ALPES
Naquele ano fatídico, a Prefeitura finalmente tinha calçado a ladeira Ribeira-Petrópolis, a chamada Ladeira da Rádio Poti, depois crismada com o nome de Gustavo Cordeiro de Faria, homenagem ao general (germanófilo) que comandara a Guarnição de Natal, nos tumultuados dias da Guerra.
E a moda, o chique, a pedida da rapaziada que possuía carro, era pegar corrida do seu início, lá na Maternidade, que foi Hospital Militar durante os tempos de conflagração, e ir terminar, com mais de cem, lá em baixo, no Grande Hotel, de Theodorico.
- Olha o aviãozinho! - descarava Eider, rindo à socapa dos sobressaltos do acompanhante, desprevenido e com o coração aos pulos - É a travessia dos Alpes!

O DESASTRE
Naquele 30 de Abril, depois duma peixada em Areia Preta, comemorativa do aniversário de Joãozinho, ou porque era caminho para nova escalada ou para mostrar suas habilidades como emérito piloto, Eider dirigiu-se para a Cordeiro de Faria.
- Olha o aviãozinho - deve ter dito - É a travessia dos Alpes!
Quando percebeu, a carreta quebrada e sem nenhuma sinalização, imprevidentemente deixada no final da ladeira e na contramão, estava em cima. Num esforço desesperado, procurou, desviar o Anglia todo para a direita.
Conseguiu apenas salvar os companheiros. Zé Guerra, no banco da frente, ao seu lado, sofreu apenas escoriações. Idem, Cristalino, postado no banco traseiro atrás de Zé Guerra, Joãozinho, no meio, ficou com um braço algo defeituoso. E Walter Rocha, passageiro por trás de Eider foi internado em estado grave e submetido posteriormente a operação melindrosíssima. Mas todos estão contando a história.
A Eider, coube receber em cheio o impacto do choque, o carro engavetando-se na carreta e ficando reduzido a ferro velho.
Duas tragédias marcaram minha mocidade. O suicídio de Doutorzinho, meu primo e amigo, da mesma idade que eu, numa fatídica quarta-feira de cinzas, e o desastre que tirou Eider do nosso convívio. Ele, que era um amigo na acepção exata do vocábulo. Um hino de alegria. Uma canção de fraternidade. Uma alegria enorme de viver. Uma ilha de compreensão e grandeza humana, num mar de tantas mediocridades e de tantos espíritos mesquinhos que sobrevivem e amarguram nosso dia-a-dia.

O DESTINO DAS FLORES
Na tarde seguinte, depositei sobre seu túmulo as rosas mais belas que Mamãe colhera no jardim. Lembrando-me a cada instante, como lembro agora, dos versos que ele gostava de recitar, a propósito de tudo ou a propósito de nada:

"Até nas flores se encontra a diferença da sorte.
Umas enfeitam a vida, outras enfeitam a Morte" .

Faço, hoje, um buquê com minhas saudades, Eider!

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Na foto, identifico:
José Alexandre, centro
José Guerra, segundo à esquerda
Mozart Silva, segundo à direita
Dozinho, terceiro à direita

Pela descrição do texto, é possível que o primeiro à direita seja Eider Reis
Essa era parte do Gango Tetéu

sexta-feira, 18 de março de 2011

Canto do Mangue



Canto do Mangue
Nelson Freire

No canto do porto,
O encanto do rio.
No espaço vazio,
O refúgio do mar
Empana-se a vela.
No barco, o dono,
Refeito do sono
Está indo pescar.

Mercado do Peixe,
 Guaiuba, Cioba
Inteira, em posta
Para se escolher.
Encontros furtivos
Nas casas vizinhas.
O sol à tardinha
 Vai desaparecer

Olhares, sorrisos
No canto da praça.
O tempo não passa
E o jeito é viver
No canto do mangue,
Olhando a paisagem,
Sentado na margem
Do rio a correr.