quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Cantar de amor e de amigo


Joanilo de Paula Rego

Eu te amei tão de repente, para sempre e eternamente, no momento em que te vi e aspirei o teu perfume, e o meu amor de menino, posse, paixão e ciúme, enraizou-se no teu chão, no teu céu e tua gente, doce cidade-menina, bela cidade-mulher. Cidade que me fez homem, a minha primeira dor, a primeira poesia, meu primeiro e doido amor, a minha flor de alecrim, desfolhado malmequer, amo a Natal das serestas, da perpétua e louca festa, dos seus boêmios cantores, das suas canções de gesta, manhãs de belezas nuas, noites de estrelas despidas, o Potengi onde bóiam as esperanças perdidas, a Redinha onde balouçam tantos sonhos tresmalhados, Procissão dos Navegantes, Festa dos Cajus, inocências afogadas nas águas do Rio Doce, e essa pureza da infância que numa noite apagou-se, travessias do canal, gritos na Praia do Forte, vida de tantas veredas, sem rumo, bússola ou norte, Natal crescendo em idade, moça passando a mulher, que se entrega a quem mais ama, que se dá a quem mais der, seios cheirando a jasmim, doce hálito de alecrim, perfume de jitirana que ficou na ilha de mim, sexo recendendo a chuva, terra molhada no cio,as enxurrada de inverno,a brisa fresca do estio, as mangueiras de Petrópolis, cajueiros do Tirol, teu corpo frio de lua, tua alma clara de sol.

Quintas que tanto pecais, Rocas saudades no cais, Ribeira dos cabarés, adeus para nunca mais, e esse odor de maresia, de cachaça, sêmen e sangue, que sobe quando o sol desce, barcos do Canto do Mangue. Grande Ponto coração, cabeça, luz, passarelas, tribuna livre do povo, pelourinho das donzelas. Dêem-me uma taça de chá, bolacha com mel de abelha, quero acender as lembranças, fogo-fátuo, luz, centelha, há tanta coisa a esquecer, há tanta coisa a lembrar, no teu ventre de sereia quero dormir, me afogar ... não canto a Natal de outrora sepultada na memória, nem canto a Natal futura de uma era sem história, eu canto a Natal de agora, sem ontem nem amanhã, Natal exístencialista, rebelde, sensual, pagã, Natal de todos os templos, credo, cor, partido, idéia, pura como um santuário, devassa como Pompéia, ai, amar mulheres várias, porém cidade só uma, molhada de sal e sol, de suor, de mar, de espuma, eu te amo, cidade-fêmea, além do bem e do mal, terra de todos os tempos, intemporal e espacial, cidade dos Três Reis Magos, de poetas e navegantes, de marinheiros errantes, de pescadores e amantes, és meu berço e minha cova, minha vida, amor, paixão, morrerei na madrugada, mordendo o teu coração, beijando teu sexo em flor coberto de relva fria, bebendo o leite que escorre das tuas dunas, teus seios, ouvindo o canto de adeus na voz da minha Maria, subindo aos céus num cortejo de anjos e pombos-correios, deixando no ar a mensagem de paz, amor e ideal, que vem das tuas entranhas, ó minha amada Natal.

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