terça-feira, 13 de outubro de 2009

O Grande Ponto à meia-noite

Joanilo de Paula Rêgo

Há cidades, sítios, locais, lugares, praças e ruas, envolvidos por uma atmosfera singular e misteriosa, por uma aura sobrenatural e mágica, que lhes demarcam o espírito e a alma, o fluxo e a presença, a solidão e a vida.
Dizia Camus que Tipasa, no verão, era habitada pelos deuses. Para Manuel Bandeira, Pasárgada era outra civilização... Shangri-La, para James Hilton, era a visão transcendental do paraíso na terra, uma escala no caminho de Deus. Para Baudelaire, a magia e a beleza estavam em "algum lugar", naquele pedaço insinuado no seu "Invitation au Voyage".
Em Natal, o Grande Ponto é o território encantado onde vive a alma errante, boêmia e lírica, curiosa e loquaz, da gente natalense. É um simples cruzamento de ruas. Poderia ser um boulevard, talvez seja um calçadão. Por enquanto, ainda é aquela área que se delimita pela Praça Pio X, ao Sul, onde se alteia a nova Catedral; pela praça João Maria, ao Norte; pelo Café São Luís, ao Leste; e pelo Cinema Rex, a Oeste. É o território profano de uma legenda sagrada, onde há várias décadas, gerações sucessivas elegeram aquele chão para pouso e escala das suas idas e vindas cotidianas ao trabalho e ao lazer. O Grande Ponto é a fusão, ou o "ménage à trois" da Rio Branco, Princesa Isabel e João Pessoa, justamente o epicentro do H, que forma o lendário, maldito, tradicional, eterno e imortal Grande Ponto.
Ali, é onde as coisas germinam e acontecem, onde elas adquirem vida, forma e notoriedade, principalmente a publicidade, o sussurro, o murmúrio, o comentário, a maledicência, sem que os fatos mais importantes se perderiam no vazio e os fatos mais triviais jamais alcançariam as manchetes. Ali, aportam os sobreviventes do diuturno naufrágio, as vozes de todos quantos percorrem as ruas da cidade, no desfile processional de cada dia, os passos perdidos nas calçadas, as vozes dissolvidas no anonimato das multidões.
Onisciente e onipresente, o Grande Ponto comanda a vida da cidade e das pessoas, de seus habitantes e moradores, de seus transeuntes e turistas. As coisas só acontecem e vivem se o Grande Ponto as registrar. Os acontecimentos, ali, se vestem com as roupas do sensacionalismo e as fantasias do escândalo, ou se desnudam no "strip tease" de sua chocante tragicidade e beleza.
Ali, se sabe de tudo, de todas as verdades e mentiras, de todos os atos e fatos e boatos, e, o que não se sabe, logo se conta com as tintas da verdade e do exagero, e o que não é mas poderia ter sido se inventa como se tivesse acontecido. Onisciente e onipresente, o "Grande Ponto" comanda a vida da cidade e das pessoas, de seus habitantes, de seus moradores, de seus transeuntes e de seus turistas.
Políticos, intelectuais, prostitutas, contrabandistas, profissionais liberais de todas as profissões e de todas as liberdades, pederastas e protestantes, bêbados e missionários, "minas" e coroas, adúlteras e tarados, marinheiros e vendilhões, cientistas e mendigos, aleijados de corpo e alma, santos de alma e de corpo, drogados e loucos, de nascença e de sofrimento, a virtude e o vício de mãos dadas, o bem e o mal em idílio fescenino e astral, toda essa formidável procissão de adoradores, amantes e amancebados dessa puta-vida como a chamou Gabriel Garcia Marquez, fazem dali o seu porto ou trampolim, sua bússola ou âncora, nas circunavegações que cada um faz em torno de si mesmo, para vencer as travessias do cotidiano.
O pai da pátria, o candidato, o técnico em idéias gerais, em futebol e finanças, o governador de amanhã, o ladrão em potencial, a menina que fugiu, o desastre que aconteceu, a mulher que trai, o último travesti, o velho transviado, a bailarina de nudez transparente, a "pirada" que faz tudo, o vapozeiro, o cara que inventou a máquina de economizar gasolina, o mão-boba e o bóia-fria, o sujeito que descobriu uma erva que levanta até defunto, o mago que conhece a poção e a fórmula que curam impotência, o contador de anedota pornofônica, o escriba pornográfico e o glosador fescenino, o derradeiro conto de vigário, tudo surge ali nu e cru como uma cicatriz: ou uma navalhada na carne.
Negócios são fechados com três palavras. Cantadas se consumam em um minuto e a vítima cai na primeira esquina. Ouve-se sempre a clássica "chamada" ou "armada", que é gritar o nome de uma pessoa e esperar que a vítima se volte e fique a procurar alguém que nunca se apresenta. No Grande Ponto, funciona a grande agência de informações para todos os viajantes e transeuntes, os perdidos e achados da vida...
O Grande Ponto é o tribunal maior da cidade, onde são julgados e quase sempre condenados os culpados e inocentes, e todos são condenados, porque o Grande Ponto não perdoa ninguém. Os jurados preferem jogar o bolão dentro de barro na túnica do justo a reconhecer-lhe de pronto a inocência que não é normal na criatura humana, ou melhor, na condição humana. Todos são degredados filhos de Eva... ou como diria Camus: "Não há mais inocentes ou culpados, todos somos vítimas".
O Grande Ponto é do contra. Contra-fé, contra-mão, contra-cultura, contra-ladrão, contra-razão, contra-ponto, contra-tudo. É sobretudo contra a força e a prepotência. Contra os governantes corruptos e antipáticos, os Narcisos do poder. É o território livre dos comícios, das passeatas, dos discursos e das badernas. E das tavernas. É a favor dos humildes, do injustiçado e do descamisado, enquanto permanecer como tal. Mas, se passa a ser forte, dominador e bandido, ele se volta para o outro lado. Passa a condenar quem antes defendia. É contraditório e instável como os ventos, o mar e Deus, e como a brisa vespertina que vem das dunas trazendo o cheiro do cio da terra. O Grande Ponto é o retrato da alma boêmia da cidade, alma leviana e borboleteante das ruas. A passarela de todas as alegrias e dores. Os esgotos de todas as sujeiras. O altar de todas as virtudes. Do Grande Ponto, se sai, pela mesma alameda, para a Catedral e para o retiro de Maria Boa.
O Grande Ponto é o palanque de todos os partidos, o parlatório de todos os assuntos, o pelourinho de todas as idéias, o purgatório de todos os pecados da humana criatura. É a grande tribuna da cidade. Sua voz, seu grito, seu protesto, seu incêndio e sua sagração. As passeatas políticas mais exaltadas, os oradores mais incendiários, os choques de paixões mais inflamadas, os fanatismos mais desenfreados, tudo ali assume dimensões de lenda e de canções de gesta, e as personagens parecem verdadeiros titãs surgidos de alguma mitologia bárbara. Grandes líderes de todos os tempos ali travaram batalhas memoráveis, duelos oratórios formidáveis, confrontos de força e prestígio, coragem e bravura. Pedro Velho, José da Penha, José Bernardo, Café Filho, José Augusto, Dinarte Mariz, Aluízio Alves, Djalma Maranhão, líderes do povo, voz do povo, amor do povo, vivem na lembrança, na saudade, na presença e na paixão dos que amam a sua terra e cultuam os seus heróis, com toda a força ciclópica das multidões em êxtase cívico.
Toda força, todo poder, toda magia, todo Dom divinatório, todo carisma, enfim, toda liderança vem do povo, nasce no estrume e no barro do sofrimento coletivo, se nutre da seiva e sangue das aspirações da gente, e floresce no sonho e na esperança da alma multitudinária. O povo ama seus líderes, nascidos de seu ventre trespassado por mil espadas, e por eles luta, mata e morre. O povo não segue jamais, antes condena e repudia os tiranos e os prepotentes, os donos do poder abocanhado como uma presa de guerra, os dirigentes gerados em chocadeiras e concebidos em estufas, fecundados na cama e na mesa das alcovas e restaurantes palacianos, no concubinato de interesses espúrios, de negócios ilícitos e das relações perigosas e clandestinas.
Há uma página de deslumbrante beleza cívica do jornalista Bruno Pereira, e de não menos palpitante atualidade, contra a invasão do Rio Grande do Norte por hordas bárbaras e indígenas. O Grande Ponto sempre foi cosmopolita e poliglota, ecumênico e universal. Zona Franca e Território Livre, bazar de todos os assuntos e mercado de todas as transações. Na Ribeira, existiu uma réplica do Grande Ponto, o café "Cova da Onça" com privatividade para os assuntos políticos.
O Grande Ponto lembra ainda o terminal de todas as linhas de bonde e ônibus que despejam a população migrante, e o local de onde partiam as excursões, os piqueniques e as comitivas políticas ou desportivas. Ali se comemoravam todos os festejos juninos, carnavalescos e natalinos. Os desfiles de pastorinhas, de escolas de samba, blocos de sujos, batalhas de petardos, aconteciam lá no pedaço. Era dali que partiam as caravanas de jogadores de futebol para as violentas disputas entre o Rio Grande do Norte e a Paraíba, os dois mais ferrenhos adversários no Campeonato brasileiro, disputado entre as seleções dos estados. Batalhas homéricas se travavam entre as duas torcidas, numa rivalidade que não conhecia limites e exaltava os ânimos a todos os extremos. Naquelas horas as torcidas se uniam, o vermelho do América, o verde do Alecrim e o negro do ABC, mesclados numa só legenda para defender os brios potiguares contra a bazófia, a prepotência e a arrogância dos tabajaras. O estádio era um grito só: "Não paraibanizarão o Rio Grande do Norte!"
Revejo as figuras oraculares de Djalma Maranhão, João Machado, Ivanildo Deus e tantos outros que comandavam ajuntamentos e rodinhas que se postavam no meio da rua, obstruindo o trânsito, a ponto de os automóveis trafegarem em marcha lenta, pedindo licença para passarem. Ali no Grande Ponto ninguém escapou no passado, e nem escapa no presente, à navalha e à língua do povo. Fala-se muito, fala-se demais, e fala-se mal. Ali o instrumento de trabalho é a língua, como chave de todas as portas e instrumento de todas as mensagens. Quem tem língua, vai a Roma, diz o ditado, e, no Grande Ponto, a língua é açoite e carícia, para falar mal da vida alheia e prometer mistérios gozosos.
Ama-se o Grande Ponto com amor felino e sexual. Os que beberam de seu vinho e se banharam em suas águas premonitórias, que tinham suas nascentes no canal do Baldo, aprendendo a ler na bola de cristal a perscrutar os alguidares das pitonisas e a decifrar o baralho das cartomantes, e não esquecerão jamais, enquanto vida tiverem, os momentos ali vividos. Poderão desertar dele por temporadas, mas voltarão sempre, ao primeiro cochilo da mulher, sob os pretextos mais variados, como a compra dos jornais do Rio, do remédio, do encontro com o amigo para realizar um negócio importante, e até para a olhada nas vitrines e a degustação de um cafezinho.
Maior do que o amor de seus discípulos eternos é a vontade de pecar dos que nunca conheceram ou a ânsia de reincidir dos freqüentadores de outrora.
Há nomes de pessoas, bares cafés, restaurantes, sorveterias, que se perenizaram nas idades e na tradição oral. Há namoradas inesquecíveis de sonhadores imortalizados através de gerações de contadores de histórias. Há os "reitores" dessa Universidade, que são nomes famosos na cidade, os verdadeiros poetas e amantes dessa "filha de Poti mais Bela" (bela adjetivo ou substantivo), como foi batizada por um primaz da Igreja, que tanto amou esta cidade entre o Potengi e a beira-mar plantada.
Natal, à meia-noite, quando começa a viver sob a lua e o sol, o início de um novo dia, é a coisa mais bela do mundo vista do Grande Ponto.
À meia-noite, hora dos espíritos e das assombrações, das serenatas e dos presságios, Natal é uma mulher nua, amada-amante, oferecendo aos que acordados a vigiam e cantam, em versos e serestas, a ceia larga de suas estrelas cadentes e o seio largo de sua sensualidade perfumada pela brisa dos morros, de seu sexo em flor cheirando a jasmim e rosas, concha marinha aberta ao orgasmo delirante de seus apaixonados. É de lá que se vê sobre o rio a estrela da manhã. Pura ou degradada até a última baixeza, como dizia Manuel Bandeira, mas só de lá é que se vê, em todo seu resplendor embaciado, em seu brilho sujo de fumo e cachaça, saliva e esperma, lágrima e riso, a estrela da manhã sobre Natal...

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