quinta-feira, 15 de outubro de 2009

O CASAMENTO DE NEZIM COSTA

Chagas Lourenço

Manoel Costa morava na fazenda Oiticica, no limite entre os municípios de Sítio Novo e Santa Cruz.

Filho de uma família de agricultores, tinha nove irmãos e era o mais velho.
Desde cedo, começou a trabalhar na lavoura e nas atividades do sítio para ajudar os pais a criar os irmãos. Tirava leite, ajudava a fazer queijo, amansava garrotes para a campinadeira, enfim, como ele próprio falava, "faço de um, tudo para ajudar meus pais na lida da Oiticica".

Nezim , como era chamado, gostava muito de trabalhar e era por demais controlado nos gastos. Católico fervoroso, rezava todas as noites para a sua santa de devoção, Santa Rita de Cássia. Assistia três missas por ano: a da Sexta-feira da Paixão, 22 de Maio (missa de Santa Rita) e a Missa do Galo, no fim do ano.

Todos os sábados, Nezim pegava o caminhão de Zé Beiju para ir à feira de Santa Cruz. Passava na feira do gado para saber como estava o preço do boi, do bode e até de burro mulo, cavalo etc.

Depois, passava na usina de algodão para comprar torta de caroço para as vacas de leite e os bois de campinadeira. Por volta de 11 horas, pegava o primeiro transporte que passasse na fazenda e voltava pra casa.

Almoçava, ligava a forrageira e preparava a ração do gado do curral.

Os irmãos mais novos de Nezim começavam a tomar cachaça logo cedo na feira do gado. Depois, desciam pro cabaré, pra dançar forró e namorar com as cabôcas novas que vinham de Cuité, Campina Grande e de outras cidades, e gastavam o dinheirinho que ganhavam na semana.

As irmãs casaram muito novas e foram mudando da fazenda: umas pra cidade, outra para outros sítios onde moravam seus maridos. Depois, os irmãos foram morar na cidade, trabalhar de pedreiro ou de servente e dois deles foram pra São Paulo, em busca de trabalho melhor remunerado.

Nezim ficou só, com o casal de velhinhos, que, por ironia do destino, morreram de pneumonia, no frio de Julho. O velho Costa, morreu na véspera de São João, e Sinhá Leopoldina, na noite de São Pedro.

A tristeza tomou conta da Oiticica, enquanto durou o luto dos pais de Nezim. Os irmãos vieram visitá-lo, as irmãs davam conselhos pra Nezim, arranjar uma companheira, pra não ficar tão sózinho naquele cazarão.

Nezim, que de sexo não entendia nada, nunca tinha ficado com mulher e brigava com os irmãos quando flagrava algum deles escanchado na jumentinha de carregar água do barreiro, para a serventia da casa.

Um ano depois da morte de Seu Costa, o luto tava desfeito e Nezim resolveu atender o convite das irmãs e foi a uma festa de São João, no Saco de Dentro, terras de João Valentim, no município de Lages Pintadas.

Chegando lá, tomou a tradicional "chamada de cana", que ele só fazia aos domingos, antes do almoço. Tomou mais uma e mais outra, com pamonha, milho assado e rolinha torrada.

Nezim, pela primeira vez, sentiu o efeito inebriante da aguardente. Ficou surpreso ao saber como era bom. Quando se deu conta, já estava dançando com Ritinha, viúva de Zacarias Nó Cego, que foi morto a faca, na bodega de Luis Baeta, em Saõ Bento do Trairi.

Ritinha, esquentada e experiente, pegou o solteirão pelo braço e levou pro salão, pensando mais nas economias do gajo, do que no homem bom que era ele. Mas, ficou surpresa e contente, quando sentiu nas pernas se avolumar a virilidade daquele fazendeiro que a única vez que sentiu um orgasmo foi em um sonho, onde acordou assustado, pensando que estava tendo uma agonia.

Depois da festa, até o casamento foi um pulo. Ritinha tinha o nome de sua santa de devoção e fazia ele sentir umas coisas que nunca sentira antes, danado de bom.

A festa foi simples como era ele; com um paletó do seu velho pai, ele casou. Foram pra Oiticica, onde Nezim mandou matar um boi erado que estava cevando, com 25 arrobas.

Dançaram bastante, até que Ritinha, com o efeito do conhaque São João da Barra, um afrodisíaco do sertão, pegou o marido pelo braço e levou para o quarto.

Chegando no quarto, na mesma cama que fora de seus pais, Nezim estremeceu. Ritinha percebendo, apagou a lamparina e puxou-o para a cama, já se desfazendo das roupas. O rapaz era só virilidade e não tinha certeza de como fazer as coisas. Ritinha conseguiu trazê-lo pra cima dela e o coitado, muito desajeitado, encostou o peito no seu rosto, como quem quer esconder a vergonha, e, numa agonia feroz, numa tremedeira violenta, gozou no umbigo da noiva. Foi quando Ritinha, cheia de desejo, falou pra Nezim:

- Não é aí, não, Nezim. É mais embaixo. Nezim retrucou:

- Espere, muié. Ainda tem um lugázim mió do que esse?

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